02/04/2018

A árvore da janela

Na altura da minha janela do escritório tem a copa de duas ou mais árvores. Dessas bem antigas da Paulista, que trazem vida à rua Itapeva.

Entre uma entrega e outra, uma frustração e outra, uma vitória e outra, eu observo a árvore. Sempre verdinha, privilégios do Brasil ser assim o ano inteiro.

Nas manhãs de mau humor imagino folhagens reclamonas. Injuriadas, se batendo umas nas outras aos berros de suas vozes, bem fininhas, suponho. "Eu só queria ficar parada, paradinha, mas esse vento é um infortúnio".

Nas tardes de bom humor, as folhas dançam. Dançam o que escuto, vai do Axé da Bahia, ao Tropicalismo de Caetano, o rap de Chali2Na, as vezes até caio na Anitta e no Pablo Vittar. E as folhas dançam, como a menina dos Novos Baianos.

Tem árvore que chacoalha menos, protegida por arranha-céu. Ou seria a idade da árvore que já não a faz tão ativa? Com estas deveria identificar não minha idade, mas meus poucos e raros dias mergulhados na coberta e no Netflix.

Fico daqui pensando também: que será que as árvores veem de lá? Ficam pensando: ih, hoje a menina tá com o cenho franzido! Hoje ela tá sorrindo com os olhos. Hmm... tá com cara de quem não teve conversa boa com o chefe. Tá lá sorrindo no telefone, fez piada até pro cliente. Ah, essa menina...

23/03/2018

Lembretes

Cerque-se de pessoas que te façam bem 
Caminhe por pinheiros na noite livre de sexta 
Ande olhando pro céu, procurando janelões para abrigar 
Escute boas musicas, estas que te fazem apaixonada pela cidade, pela vida. 
Coma bem, mas uma fritura nunca matou ninguém. 
Músicas pra dançar pelado é a sua playlist favorita, do D2. 
How I see the word? 
Não tenha medo de fazer as coisas sozinhas. A solidão centraliza, encaixa a paz.
Tudo bem quem não te queira, há tanta gente pra acolher esse coração.
Tem quem admire e admita esse seu jeito menina, de olhar nos olhos e ouvir. Uma conversa às vezes é mais intensa e pessoal do que uma transa. 
Lembre-se sempre do tanto que a vida tem sido generosa. A vida tá boa. 
Continue contando os dias para a Bahia, e pra todos os outros destinos que virão. 
Opte sempre por quem prefere Havaianas e tênis. 
Não deixe de fazer o bem, mesmo que a sociedade revolte e mostre que não vale a pena. Seja o exemplo miudinho.
Não se esqueça, menina, este sorriso largo conquista e cativa. 
Siga a vida leve e simples, como vovô ensinou. 

04/12/2017

Você já se declarou hoje?

Eu vejo que a gente tem uma mania danada de ressaltar tudo o que é negativo. De querer lavar a roupa suja com vanish, vez ou outra colocar panos quentes, colocar os pingos nos Is. Mas quase nunca destacar o bom coração, a gratidão, por mais clichê que seja.
Não é feio, nem vergonhoso admitir. Abra o WhatsApp, olhe nos olhos, faça uma ligação, escreva um post it tímido, como preferir... Mas vale agradecer pelo o que se aprendeu, assumir que se ama, lembrar que tem bolo na geladeira, e até pedir perdão.
É doloroso e irritante, mas verdade seja dita: as pessoas fazem a diferença.
sorria.

16/11/2017

Vai que morre

Ando perdendo amigos por dizer isso com frequência. “credo, Letícia, para com isso”. Mas o que é que tem? Eu vou morrer. Você também. E aí? Já pensou se você chega no trabalho amanhã e descobre que eu morri? Ninguém está imune disso, até onde sei.

Mas quando eu morrer, eu espero que você ria disso. Como rimos juntos de qualquer bobagem que eu tenha dito ou feito. O fiz pra você rir mesmo, pra sua vida ser mais leve. Porque essa de rigidez não me parece estar com a razão. Doe meus órgãos, enquadre as tatuagens, creme meu corpo e lembre de alguma vez que choramos de rir.

E se você morrer? Já pensou... tá lá vivão, aí dorme e pá: acorda morto (Navareño, Beto). Como é que fica? Não precisa deixar um legado, ser como Gandhi, Madre Tereza, Chico Xavier, Gretchen, Bono Vox. Aparentemente só precisa estar sempre com as malas prontas. E não é de dinheiro, biquíni e tênis da Adidas não. Parece que a mala tem que estar cheia de consciência tranquila.

Outro dia ouvi dizer que tem medo de morrer quem teme. Teme que não fez tudo o que queria fazer? Morreu sem viajar para poupar, sem chocolate para não engordar, sem gargalhar pra não incomodar, sem estudar porque ia colocar em sacrifício as noites, sem empatia por falta de tempo para se doar. Só deixou marcas no sofá onde esperou sentado.

Também não precisa viver prolongando a vida. A gente nem sabe quanto vai durar. Ora sim, ora não, maçã com casca previne doenças. Será que salame faz mesmo tão mal assim? Evite cigarros, álcool, drogas e meia maratona pra não viver vítima das vitaminas e suplementos. Use filtro solar, mas se não quiser, pode.

Eu não sei bem terminar texto sobre te lembrar que vai morrer. Mas, segue conselho de mãe: coloque a cabeça no travesseiro todas as noites e esteja com a consciência tranquila. Porque.... vai que morre!

16/08/2017

A minha avó

Quanto mais velha eu fico mais eu penso sobre o bem que fazemos para as outras pessoas. Eu não sou o melhor exemplo disso, mas tive uma professora e tanto nessa vida. Vocês me desculpem, mas eu vou ter que falar da minha avó.

Lá antes dos meus sete anos eu já gastava tardes na casa da dona Rosa. Nesses tempos o arroz doce saia em duas vasilhas com canela salpicada por cima e uma sem, porque eu (só eu) não gostava de canela. As tardes passavam lentamente com netos e filhos misturados na cama dela entre retalhos de tecido e sobras de linha, enquanto a vó costurava uma roupa pra eu esperar o Papai Noel. As roupas mais lindas que tive na infância inteira foram feitas pela vó Rosa. 

As poucas noites que dormi na vó, numa delas, minhas primas e minha irmã me fizeram dormir na beirada da cama de casal do tio mais novo. Eu tinha medo de cair no chão no meio da noite, mas aí a vó colocou um colchãozinho no chão para evitar acidentes. Ela fez isso só pra mim, só nessa noite que fui obrigada a obedecer ao comando das mais velhas.

Ainda tem as lembranças dos almoços nos dias de semana, o arroz-feijão-e-angu mais gostosos dessa vida toda, e depois ia pra escola com a barriga cheia, um beijo e benção vovó, Deus te abençoe minha filha. Também tinha as vezes que tava só eu, ela e minha mãe, e a vó me dava um Moranguete escondido, ou quando guardava o Crocante da Garoto porque sabia que era meu preferido e só vinha um na caixa. Eu ainda posso contar sobre o quanto esperava a ligação dela nos meus aniversários depois que ela mudou pra Minas. Ou quando me dava 20 Reais e dizia que era pra dividir com a minha irmã. Tem também todas as vezes que ela perguntou de mim pra minha mãe sempre citando "a risadinha da Lele".

Eu perco a conta de quantas coisas boas a vó Rosa fez pra mim. Se hoje eu sou feliz, ela é uma grande responsável por isso.

Eu ainda não sei bem o que a gente faz depois que alguém que a gente ama muito vai embora. Eu só sei que se for pra fazer alguma coisa, que eu saiba levar pra frente essa facilidade que ela tinha de fazer a gente feliz.