18/01/2011

Quem precisa de uma jornalista?

Escrevo bem (eu acho), me dê o tema que te dou a pauta. Me dê indicações, que te entrego o texto pronto. Eu vou tomar cuidado para não repetir palavras, vou usar o dicionário para garantir a coerência das palavras no meu texto e talvez eu me perca com as vírgulas. Eu gosto delas. Mas depois releio o texto e se eu não reescrever tudo de novo, vou com certeza tirar as vírgulas em excesso. Caso contrário, vou ter que ler mais uma vez para ver o que ficou com sentido.

E se ainda assim você não gostar do que eu te entregar, podemos fazer de novo. Mas dessa vez pode ser junto? Aí entendo o que você quer e explico o que quis fazer. Com isso, entramos em um acordo e começamos tudo de novo: pauta, fonte, entrevista, texto, edição, e fim.

Ficou muito grande? Ok, deixa que eu corto. Todo jornalista é suficientemente vaidoso para não gostar que mexam em seu texto. Com minha pouca experiência já aprendi que essas alterações são inevitáveis, mas por favor, não desfaça minhas piadas, ok? Se não perde a cara de um texto escrito pela Dal’Jovem. E se ficar grande demais eu com certeza saberei quais são as informações que podem sair, uma vez que eu participei de todo o processo de apuração, certo?

Agora precisa de imagens para diagramar? Ok, deixa comigo. Já tenho uns bons contatos que possam me ajudar. Ou prefere ir fazer as fotos? Certo, posso ver isso e agendar sem problemas. Verifico as disponibilidades e te aviso. Depois disso é só partir para a produção.

Tá precisando fazer um editorial de moda? AMOOOO. Vou ali telefonar para algumas assessorias, peço as roupas, vou precisar de uma ajuda com os modelos. O lugar? Hmmm, isso depende da pauta, mas isso não é tão difícil. Fazer fora de estúdio fica bem bom, eu prefiro. Depois é só devolver todas as peças, se não for do acervo da produção, claro.

E agora precisa bombar as redes sociais do veículo de notícia? Ok, deixa comigo. Me dê uns livros na mão, uns bons temas e mãos a obra.

O perfil da jornalista? O importante é dar conta do recado, cumprir com as exigências solicitas, e por favor, permita que eu faça com boa vontade. Confia na minha independência, talvez eu quebre a cara e precise corrigir urgentemente. Por outro lado, tenha certeza de que saberei ouvir o “eu disse que não ia dar certo” e fazer diferente da próxima vez. Por contradição, confie na minha capacidade de trabalhar em equipe e designar funções, se necessário. Ou se for necessário que eu faça tudo sozinha, ok, eu vou pirar, mas vai dar certo, só me deixa fazer com calma para sair bem feito, combinado?
Agora me diz, quem precisa de uma jornalista?

09/01/2011

A boa e velha música boa

Quando o século XXI ainda não tinha completado uma década eu já dizia que tinha nascido na época errada. Antes pela apreciação do que era moda nos anos 40 e pelo bom uso de chapéus cheios de charme. Depois pela admiração que depositava na união dos jovens em promover os Movimentos Estudantis bem na época do cale-se (ou Cálice, para fãs de Chico Buarque). E hoje digo isso com saudades das boas músicas.

Não é a toa que toda vez que me perguntam o que gosto de ouvir, respondo: música boa. Dizem que o que define “música boa” é o gosto de cada um. Mas discordo a partir do momento em que se aprecia a queridinha Bossa Nova, rica de boas palavras, bons acordes, boa voz, boa saudade e melancolia.

Quem além dos formadores da Bossa Nova seria capaz de compor e cantar com tanta saudade das terras brasileiras? Com tanta admiração às mulheres desse país? E com tanto respeito a toda a riqueza dessa nação?

Nesta semana estava voltando para casa ao bom som de músicas do Tom Jobim. Além de me acalmar do estresse do dia, a música cantada por ele e seus convidados me levou a uma série de reflexões. Cheguei em casa e fui desabafar com a minha mãe –coisa rica da minha vida – durante nosso papo, ela muito sábia me diz: “É, naquela época sentava-se à mesa de um bar para compor boas músicas”.

Naquele tempo a cerveja fazia surgir música, poesia e cultura brasileira. Hoje a cerveja gera discussões sobre sexo, mulher e futebol. Não generalizo, afinal é difícil acreditar que Vinícius de Moraes não falava sobre mulheres e Tom Jobim sobre suas Garotas de Ipanema. Mas das mulheres que eles falavam surgia “uma mulher tem qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade”.

O que temos para hoje são músicas que valorizam o corpo feminino, normalmente artificial pela academia ou cirurgias plásticas e o apelo sexual escancarado. O trocadilho deixa de ser uma crítica para ser malícia, abandonando um Cálice para ser “O jeito é dar uma fugidinha com você”. O resultado da mudança de foco da música brasileira é a adoração de muitos, mas dessa vez, a preferência da massa não move a reflexões inteligentes, nem a apaixonados adoráveis, e muito menos a valorização do que ainda temos de bom no Brasil.

E se posso aqui definir o atual conceito de cultura brasileira, como já disse, relacionado a sexo, mulher e futebol, preciso confessar: não entendo nada dessa brasileira moderninha.

Obs.: Sei que Chico Buarque não foi da Bossa Nova. Mas sou tão fã do trocadilho de Cálice que não poderia deixar de tratá-lo como exemplo nesse desabafo sobre as saudades das boas músicas. O foco só foi na Bossa Nova porque é, como disse, minha queridinha.