28/02/2012

Todo carnaval tem seu fim

Não poderia usar clichê melhor do que a música dos Los Hermanos para falar sobre a data queridinha do Brasil. Ainda que existam muitos brasileiros (inclusive amigos meus) que afirmem não gostar do feriado da carne, é fato que todo mundo é beneficiado com os quatro dias de festa ou descanso – ou os dois juntos. Eis que hoje, na loucura da rotina do trabalho, me pego pensando que há uma semana eu estava exalando felicidade. Era carnaval!

Era carnaval: meu pé estava tão sujo que eu era um centímetro mais alta, fiz um milhão de amigos e não lembro o nome de quase nenhum, falei com gente que jamais falaria, e ri de coisas que não gargalharia se fosse uma festa comum. Tomei mais água do que o normal e ainda pulei mais do que sou capaz. Quis desmaiar de calor, como de costume. E comi mais do que em qualquer outro carnaval ou feriado que seja. Não descansei na mesma medida que festejei, mas vivi histórias suficientes para rir o resto de 2012. Voltei para a vidinha paulistana desejando quatro carnavais por ano.

E então no meio da cidadezinha do interior de São Paulo, sentada na beira do rio, enquanto outros amigos comiam pastel, pensei: não é louco viver isso tudo? E conclui com a cabeça sã de que o carnaval é um universo paralelo. Afinal de contas, quando é que eu (uma pessoa chatinha, fresca, brava e mal humorada) vou abrir o coração e rir de qualquer riso dado pra mim? Ou de gente dizendo que meu esmalte azul era ridículo? E ainda de um cara que me olha e me oferece sua bebida dizendo: “Qué um gole, fia?”?

Além dos risos, só o carnaval para me fazer pular por horas e dias, quase sem parar, andar para cima e para baixo, quase sem parar, e não ficar com as piores dores nas pernas que qualquer aula chatinha de academia pode me fornecer em 40 minutos. Aí no carnaval você pensa que vai chegar em São Paulo e se matricular na academia do lado de casa, porque percebe que é capaz. Mas claro que não. É carnaval e só o universo paralelo dele te faz não sentir dores absurdas.

E digo mais: não duvide do carnaval! Se você espera que ele seja calmo, você vai festejar. Se você pensa que vai ser uma loucura, vai ser previsível. Ou se você não espera nada, vai ser ótimo. E tenha certeza de que o carnaval, principalmente os bem aproveitados, te farão mudar todos os conceitos sobre a vida, e te fazer viver uma metamorfose ambulante. Ah! E se você detesta ficar com as músicas do carnaval na cabeça, tenha certeza de que elas ficarão impregnadas na sua mente pelo próximo mês.

Enfim, depois desse universo paralelo e surreal, o carnaval chega ao fim e você precisa resgatar a sua concentração para viver a tal da vidinha paulistana, que você já tinha abandonado há cinco dias. É nesta hora que você percebe que está no bico do corvo, sua voz foi trocada pela da Vera Verão, e seu corpo tá pra lá de Bagdá. No fim das contas você já esqueceu o nome de 90% dos amigos que fez e esqueceu também das coisas que viveu com eles. E ai eu te digo que você só vai relembrar disso tudo no carnaval do ano que vem.

Fim.

01/02/2012

Ser paulistano

Há certo tempo li alguns textos jornalísticos falando sobre os paulistanos, em um deles, inclusive, um estrangeiro falava sobre sua admiração pelos paulistanos. Na mesma época, conheci em São Paulo um carioca da gema que dizia amar a tal cidade e o fato das paulistanas serem tão sérias e firmes. Fiquei me achando, claro. No texto que li o gringo falava sobre o desejo dos paulistanos em querer causar boa impressão, estamos sempre bem vestidos, somos simpáticos, e inteligentes. E fez também uma comparação com os cariocas, dizendo que lá eles usam mais Havaianas do que os paulistanos.

Nessa semana, em um momento de fúria da volta para casa, me lembrei desses fatos e conclui que essas pessoas não sabem o quão desgraçado é ser paulistano. Creio que devem existir uns gringos que admirem a quantidade de luzinhas dos carros na marginal às 19 horas. Ou mesmo outros brasileiros que julguem surpreendente a pró-atividade dos paulistanos e o sangue que damos pelo trabalho. E sem dúvidas tem muita gente achando que a capital paulista é perfeita porque aqui “todo mundo” anda de carro de rico, tem um emprego bom e um futuro promissor.

As pessoas não imaginam a quantidade de horas que a gente perde (perde?) no escritório dando até a última gota do suor. Muito menos as muitas horas por dia (pelo menos quatro) que ficamos no trânsito, ouvindo notícia sobre trânsito, música sobre trânsito, lendo folheto sobre um novo imóvel para socar mais gente na belezinha da cidade grande.

Essas mesmas pessoas, as que admiram o paulistano (para não dizer invejam), também não imaginam as horas que a gente perde em uma sala de aula, aprendendo coisas novas, conquistando um novo diploma, na esperança de conseguir uma promoção no trabalho e, enfim, comprar um carro da Honda. Mas, carro pra que? Para perder horas no trânsito, óbvio.

Ainda sobre essas pessoas, as invejosas (pronto, falei), não sabem como é “gostoso” não ter tempo ou dinheiro para praticar atividades físicas. Porque perdemos o tempo no trânsito e o dinheiro na gasolina (ou no bilhete único, ou no aluguel caro do apartamento perto do trabalho). Porque é que trânsito não emagrece, não fortalece os músculos, não alivia as dores nas costas e o inchaço nas pernas?

Eu queria dizer para essas pessoas que admiram, invejam ou se espelham nos paulistanos, sinceramente meu amigo, inveje os cariocas! Eles usam os calçados mais confortáveis que o Brasil já viu (Havaianas, dã!), e o tempo que eles NÃO perdem no trânsito, eles aproveitam na praia. O horário de verão favorece a economia de luz no Rio, porque a população está na praia – torrando o corpo, jogando futevôlei, correndo em Copacabana, tomando água de coco na Barra, ou gravando novela (porque no Rio todo mundo parece famoso). Carioca não perde horas no escritório, porque a maioria deles não quer um carro melhor, eles trabalham para conquistar o suficiente para sobreviver.

Entendeu? Se não entendeu, vem comigo às seis da tarde.