10/03/2012

Eu AMO trânsito

Um belo dia acordei para a vida e percebi que não ia adiantar nada me emputecer por conta do trânsito. Muito menos reclamar dele incansavelmente para as pessoas e nas redes sociais. Menos ainda desgastar minha beleza por ele. E percebi que xingar em pensamento o motorista, o cobrador e a torcida do Curintia por conta do trânsito paulistano não ia fazer com que os carros andassem mais rápido ou que menos pessoas saíssem de casa. Resolvi, enfim, amar o trânsito.

Sempre que acontece uma coisa ruim na vida da gente aparece uma alma boa e diz “mas veja o lado positivo disso”, o que na maioria das vezes me irrita, mas sempre faz muito sentido. Mas quando o assunto é trânsito você pode reclamar sim, que sempre vai ter alguém com uma história pior do que a sua, que perdeu cinco horas em um caminho de 30 minutos. Nos meus momentos de fúria com a capital paulista nunca ninguém me apontou o lado positivo do caos.

E então, em um belo dia acordei, respirei fundo, fui para a rua e pensei que nem o trânsito ia me irritar. E não me irritou. Era uma segunda-feira de verão, eu estava de calça jeans e regata, com o cabelo solto: logo eu podia me irritar com o calor, com as pernas quentes e com o trânsito que não andava. Eu me atrasei uma hora para chegar no serviço. Eu não me irritei. Não tinha o que fazer. Ir a pé era pedir para desmaiar de calor. Não tinha como fugir de trem e jatinho é uma coisa que eu não tenho. Fiquei sentadinha no ônibus, pensando na vida e observando que todo japonês tem um carro da Honda, e que os carros da Cherry estão cada vez mais populares no Brasil.

Não foi tão difícil como imaginei não me irritar com o trânsito.

Nos dias subsequentes comecei a perceber as vantagens do trânsito. Se não fossem as horas que eu fico nele eu não leria tanto quanto leio. Não prestaria atenção em letras de música. E não teria a oportunidade de ser gentil com gente desconhecida cumprindo com o simples gesto de segurar a bolsa ou a mochila. O melhor de tudo é poder dormir mais uma hora, pelo menos. Porque eu sou uma negação para acordar cedo, só a obrigação do trabalho consegue me arrancar dos meus lençóis. Então o trânsito colabora para que eu consiga ir trabalhar com mais energia.

Agora se você é o motorista, recomendo que você compre livros em áudio ou faça aulinhas de inglês no carro. Ou então converse com os seus vizinhos e descubra se um deles vai pro mesmo lugar que você e cada dia um dirige, um dia você dorme outro dia ele. Ou então, reze para seu chefe deixar você trabalhar em casa – nada mal, hein?

O importante, minha gente, é não permitir que o trânsito leve seus últimos fios de cabelo ou arrase o seu coração. Veja vantagens nos detalhes – por mais irritante que seja essa ideologia da paz.