29/04/2012

Meu futuro, meu comercial de margarina


O que você espera do seu futuro?


Creio que todo mundo idealiza um futuro promissor. Carreira feita em uma empresa reconhecida, um bom carro na garagem, a família feliz, e livre de qualquer problema. É quase um comercial de margarina: a mulher bem sucedida, chegando em casa com as compras na sacola, sendo recebida pelo cão e pelos filhos, e tira da sacola a margarina que irá dar o toque final da perfeição da cena. Eu quero viver um comercial de margarina.


Quando penso no meu futuro, eu sou a personagem principal do comercial de margarina. Chego feliz em casa,  apesar de um dia cheio de trabalho – um tanto quanto estressante, cheio de reuniões com gringos de todas as nacionalidades – e sou recebida pelo meu lindo filho (que é sempre pequeno e tem cabelo cacheado), o marido nunca está de bom humor no meu comercial, talvez porque eu trabalhe demais. E também não tem um cachorro, não gosto de cães.


Mas ai repenso. Não quero um marido mal humorado. Não quero um marido. E então me vejo com filhos, dois ou três deles, sem filho. Uma mulher totalmente independente. Não precisei de um homem para ter os filhos, provavelmente adotei as adoráveis criancinhas. Estas me recebem com beijos  e abraços, me contam sobre seu dia ligeiramente, correm para mostrar o que fizeram, e logo se cansam e vão dormir. E então eu fico sozinha no meu apartamento bem decorado.


E também não acho um comercial de margarina feliz ou ideal. Ninguém quer terminar o dia sem desabafar sobre o estresse causado pelo chefe ou pela amiga de trabalho. Muito menos sem planejar o final de semana ou as próximas férias. E então, repenso um novo comercial de margarina...


Neste moro num apartamento suficiente para duas. Nem grande, nem pequeno. Bem decorado, simples e aconchegante. Chego em casa e não tem ninguém, ponho a sacola com compras do mercado (e a margarina da felicidade lá dentro) na cozinha. Deixo a chave do carro em algum canto, tiro os sapatos no quarto, onde também deixei a bolsa. Volto então para a cozinha, calçando confortáveis Havaianas brancas e preparo qualquer coisa para comer. É quando chega minha amiga, que divide o AP comigo. Estamos cansadas e estressadas, e então ela me conta sobre sua semana de fechamento e eu sobre minhas reuniões para definir estratégias. Terminamos as noites com papos de mulherzinha e pão com margarina, felizes pela independência conquistada.


O último comercial de margarina pode não ser perfeito, não tem família feliz. Mas é o mais provável de acontecer. Tem lá seus problemas e infelicidades, mas sou a mulher que quero ser: independente. Não me acho capaz o suficiente para amar alguém e me casar, sou excessivamente egoísta. Além disso, sou exigente demais para achar que alguém me ama na mesma intensidade que eu. Melhor então, ser feliz sozinha. Meu comercial de margarina acredita nisso.


No que o seu acredita?

10/04/2012

Meu esforço

Ontem ela me pegou de jeito. Me agarrou com força, como quem quisesse matar as saudades e não largou mais. A danada me encontrou em uma esquina qualquer no caminho para o trabalho e foi fazendo eu me sentir cada vez pior. TPM deve estar entre as causas que matam mulheres. Ainda não descobri coisa pior no mundo.

Eu tinha acordado bem. Descobri que a minha miopia aumentou um grau e continuei bem. E no caminho para a agência fui ficando triste, “tristinho, mais sem graça que a top model magrela da passarela”. Não queria ir trabalhar, nem ver ninguém. Só ir pra casa e viver a cena adolescente: trancada no quarto, chorando sem motivo com a cabeça enfiada no travesseiro – até sufocar e soluçar.

Foi difícil trabalhar. Nada me melhorava. Fui no banheiro duas vezes para chorar. Mas me sentia tão ridícula pela situação que pensava em frases motivadoras para mim mesma. Fiquei com dó de mim. Na segunda ida ao banheiro para despejar lágrimas optei pelas caretas no espelho para ver se saia um sorriso. Fiquei com mais dó de mim, por ver o meu esforço e não conseguir sorrir. Tentar sorrir só me deu mais vontade de chorar mais.

E quem é que entende isso tudo? Nem mesmo as mulheres se entendem. Só sabem que é bom chorar. Mas chorar eu não podia, era hora de trabalhar. Fiz um chá. Acalmou.
Continuei sem fome até o fim do dia. A vantagem da TPM triste (porque tem TPM nervosa, a briguenta, a carente...) é que não dá fome e você emagrece. Comer faz mal nessa classificação do período crítico feminino. A vantagem vem pro corpo e a desvantagem para a saúde.

Depois do almoço – apesar da ausência da fome eu arrisquei comer para não morrer – fiz mais um chá, com muita açúcar. E mais calmaria até chegar uma hora que respirei fundo e pensei: to bem.

Quem é que entende essa instabilidade toda? E ainda há quem diga que é fácil ser mulher.