28/05/2012

E ai, morena!?


Não aconteceu só uma vez! Era dia de festa, tanto noite, quanto dia, desfilava nos meus despojados looks, com tênis nos pés, sem querer saber de ninguém, a não ser da diversão. E então me surge um homem, que me vê e para chamar a minha atenção, me diz: “E aí, morena!?”. Ignorei, óbvio.

Ignorei não só porque o xaveco é ruim, mas porque não acho que a morena que ele quer chamar a atenção seja eu. Paulistana dos cabelos escuros e da pele clara não merece ser chamada de morena. Uma morena que se preze tem todo o direito de se revoltar caso ouça algum homem me dizendo “E aí, morena!?”.

Tá certo que sou daltônica e não tenho argumentos para discutir cor. Mas tenho sã consciência da minha brancura, tão branca que dá até para ver as veias do corpo.

Nem nos dias pós-praia mereço ser chamada de morena. Primeiro porque fico vermelha, e não bronzeada. E segundo que sou TÃO branca que as pessoas nunca reparam que estou queimadinha do Sol. E mais: sou tão branquela que qualquer extravasada na exposição ao Sol me deixa ardida, logo sou daquelas neuróticas com sombra e protetor solar na praia.

E então, meu caro amigo, eu te pergunto: porque é que tem gente que me chama de morena?

Acharia muito digno se um dia algum cara da balada me visse e me dissesse: “E aí, branquela!?”. Eu responderia. Tanto pela criatividade, quanto pela sinceridade. Agora, os que insistem na morena... Continuarão sendo ignorados na mesma medida.

17/05/2012

O vô


Sabe uma pessoa que quando você pensa nela o coração se enche de alegria? Se tem uma pessoa capaz de me causar isso, é o vô. A admiração que o Seu Geraldo cativou em mim foi tão grande, que me sinto incapaz de retribuir a ele tudo que ele me ensinou nesses meus 23 anos de vida.

Não é a toa que tenho paixão pelo Exército Brasileiro. Me lembro bem quando no final do ano passado eu disse para ele: Vô, eu quero entrar para o exército. E ele, com os olhinhos mineiros e orgulhosos, me respondeu que eu era a primeira pessoa da família que dizia isso para ele, que seguia os passos deles.

Cresci admirando as fotos do Soldado Fonseca, vulgo meu vô, na 2ª Guerra Mundial. Achava o máximo o vô ter participado de um fato histórico tão grandioso, apesar de tão triste e violento. Gosto até hoje de ouvir o que ele tem a dizer sobre a guerra: os dias no navio até a Itália, quando viu Mussolini, as condições de vida durante as batalhas... E gosto mais de lembrar quando ele ainda conseguia fazer as flexões que fazia no exército, de quando representava como tinha que marchar e saldar seus superiores.

Não é a toa que me sinto um tanto quanto disciplinada. A educação do Seu Geraldo, passada para filhos, netos e bisnetos, é das firmes. Se hoje fico em silêncio quando o mais velho quer falar, é porque em toda a infância o vô ensinou suas histéricas netas a assim agirem. Ele dava um pigarro quando queria falar ou fazer a oração nos almoços de família e aos poucos todo mundo se calava e ele começava: Deus nosso Pai, criador do céu e da Terra...

Mas a educação desse velho mineiro, de pouco cabelo e bigode brancos, também é das engraçadas. Não é por acaso que a família usa a expressão “Espírito de Geraldo”. Basta alguém do mesmo sangue que o vô começar a provocar o outro com brincadeiras de mão (puxar cabelo, beliscar, dar uns tapinhas...) que alguém logo solta: ó o espírito de Geraldo. Ser atentado está no gene da família.

Eu poderia passar a tarde contando causos do vô: tudo o que ele me ensinou, as conversas de mineiro dele, como conheceu a minha avó, as brincadeiras de mão nos Natais, os dias que ele resolvia ficar de mau humor, e até nossa conversa sobre casamento (que eu perguntei se casar era bom e ele só respondeu um “iiiiiih” por cinco minutos. Até hoje não sei o que ele quis dizer com isso)...

Hoje o Seu Geraldo completa 95 anos. E se eu pudesse, o colocava numa caixinha para ele viver o resto da vida. Para disputarmos sempre quem vai comer mais angu durante o almoço, brincar de beliscar a mão um do outro, ver o tanto que ele fica incomodado quando corta o bigode, e para que cada bisneto que ainda está por vir tenha a mesma educação que ele passou para cada filho e neto. 


Feliz aniversário, Vô. :)