29/11/2012

O frio irlandês


O frio é um mal desnecessário. O frio não é o tipo de mal que vem para bem. O frio é o tipo de mal que vem pra acabar com a sua vida, com o seu humor, com a sua vontade de reagir a qualquer coisa, seja boa, seja ruim. O frio não dá vontade de viver, só de dormir e de comer coisas que engordam bastante.

Quando eu vivia no Brasil eu dizia “ai adoro o frio”. Mimimi para mim! Eu não sabia o que era frio.

Hoje quando as pessoas me perguntam: “E aí, Lê? Como estão as coisas por aí?”, simplesmente respondo “tá frio”, porque é isso que acontece por aqui. E tenho raiva daqueles que me respondem de volta “Ai que inveja! Aqui tá um calor de 30 graus, eu amo o frio!”.

Não, queridinho! Você não ama o frio! Antes de eu me permitir viver essa tal de chique vida europeia, eu também dizia que amava o frio. Mas eu não sabia o que era o frio. Frio é ter máxima de quatro graus em um dia. Frio é ver a grama congelada. Frio é ver os motoristas tirando gelo de cima dos carros logo às 8h30 da manhã. Isso é frio, meu Brasil! E esse frio, com a graça do homi do céu que cuida do tempo, a gente não tem!

Se ainda com esse discurso todo, você insiste em amar o frio, vou te fazer preferir o verão te contando a quantidade de roupa que visto por dia:

- uma meia-calça grossa
- um par de meia grossa
- um par de meia normal
- uma camiseta
- uma malha de lã
- um moletom
- uma jaqueta grossa
- luvas
- cachecol
- protetor de orelha
- toca ou capuz
- uma bota quente

Cansou de ler? Imagina vestir isso toda santa manhã SÓ para ter que ir assistir aula? Muito gostoso (só que não). E sabe o que é pior? Ainda com isso tudo, a gente sente frio. E sabe o que é pior? Ainda não é dezembro, e em dezembro é too much pior.

É minha gente, e então é isso. Quando você decide intercambiar todo mundo diz “Ahhh... só o primeiro mês que é ruim porque você sente falta da família, depois acostuma”. Mas as pessoas esquecem que o frio chega, e que a gente tem um pai quentinho, um namorado quentinho, um país inteiro bem quentinho, e fica sofrendo o segundo, o terceiro, o quarto, quinto, sexto mês... Até o fim, até o calor chegar. E quando o calor irlandês chegar, vai parecer o inverno do Brasil.

Para terminar quero dizer que frio é não ter mais nenhum resquício de marquinha de biquíni no corpo. E é isso que me acontece.

21/11/2012

Meu Cidão


Ê meu Cidão, quem diria que a vida te prometia isso tudo? Sei bem que um casamento e duas filhas não era bem o que você sonhava lá nos seus 16, 17 anos de vida. Sonho seu era se formar em psicologia, comprar o seu apartamento e viver uma boa vida cheia de independência. Mas a vida surpreende, não é mesmo?

Hoje estamos aqui, eu aqui e você aí, ou vice-versa. Mas estamos longe e morrendo de saudade uma da outra. Como pode? Quando eu tinha lá meus mal-humorados 13 anos tudo o que eu mais queria era morar bem longe da minha mãe, meu Cidão, mas hoje, 10 anos depois, tudo o que eu quero é poder voltar a poder segui-la pela casa.

Ainda bem que a gente cresce, aprende com a vida, amadurece, e o amor a tudo muda... Se não fosse isso eu ainda seria mal-humorada, metida a independente e muito mais egoísta do que o normal. É, eu não era nada fácil lá nos meus 13, mas convenhamos que você também não era a mãe mais legal do mundo! Não me deixava sair todo santo final de semana, meu castigo era ficar fora do escotismo, e ainda por cima você achava ruim quando eu arrumava uns (quase nenhum) paquerinhas!

É fato que eu achava isso tudo ruim, péssimo, terrível. Me sentia reprimida e mais retardada do que o normal para os adolescentes. Mas hoje vejo que se não fosse isso tudo, talvez eu seria uma drogadinha, com cinco filhos e sem futuro de vida. Uma decepção! Mas mãe sabe o que faz e sempre coloca o filho do caminho certo, obrigada, meu Cidão.

Duro é ter 23, ter você longe de mim, e agora que eu realmente quero a sua opinião você diz: “Ah, minha filha... Você sabe o que é melhor para você”. Ô mãe, porque você é tão do contra? Preferia quando você dizia “fala com o seu pai” do que quando você diz “você sabe o que faz”.

Ô Cidão, é muito difícil tomar decisão, porque você não me alertou disso antes? Se tivesse me dito teria escolhido não crescer, não sonharia tanto em ser tão independente. Ô mãe, vem cá me colocar no seu colinho, fazer um cafuné no meu cabelo (do mesmo jeito que você fazia quando catava piolho quando eu era criança) e depois me faz um chazinho e venha me dar um beijinho de boa noite.

Ô minha Cidinha, é duro demais viver sem você. Não tem colo, não tem risada, não tem lutinha, não tem nem bronca porque eu cheguei em casa mais tarde do que o normal e não avisei.

É minha criança boazinha, o futuro que acontece agora pode não ser o que você sonhou. Mas – repito – a vida surpreende, e vai dizer que você não gosta mais de ter três companhias terríveis do que viver sua independência no seu apartamento?


Ô meu Cidão, não saia nunca do meu coração!

20/11/2012

A falta


O assunto é simples: o que fazer com a falta que sinto das coisas? Não estou falando de saudade. Saudade a gente chora, respira, chora de novo, conversa no Skype e alivia um pouco a dor. Mas e a falta? E a vontade?

Acordei de uma maravilhosa soneca da tarde com um desejo sem fim de creme de mandioquinha. Nunca vi mandioca aqui, quem dirá a filhotinha, pequenininha, gostosinha, mandioquinha. Ahhh, mandioquinha! Que saudade de você!

E aquele cheiro que eu sinto na mão da minha mãe enquanto ela está preparando o almoço? Um cheio de cebola, com alho e caldo Knor. Eu sinto falta desse cheiro. Cheirinho de comida caseira!

E que graça tem domingo fora do Brasil se a gente não tem café, pão de queijo, delícias  de padaria e Faustão? Não tem graça comer simplesmente pipoca e bolacha recheada sem poder assistir Dança dos Famosos e Vídeo-cassetada na televisão. Mas falta mesmo faz um pão de queijo bem quentinho exageradamente recheado com requeijão.

COMO É QUE NÃO TEM REQUEIJÃO NO MUNDO INTEIRO? Cream cheese é artigo de luxo na minha casa em SP, aqui é o que tem e acho sem graaaaaaaaça. Eu quero requeijão! Pelo amor de Deus, Nestlé, manda requeijão pra cá para a Europa!

Não tem Tang! Todo suco de laranja tem gosto de estragado (eca. eca. eca). O jeito é se render ao Maguary, encontrado no mercado brasileiro – que salva alguns desejos repentinos do estomago.  Pelo menos a Coca-cola é igual.

Tem feijão, ou de lata com gosto doce, ou de saco igual no Brasil. Mas não tem panela de pressão. E aí como é que faz? Deixa o feijão cozinhando a noite toda? Não tem couve. Não tem fubá, não dá pra fazer angu (vó Rosa, vem me salvar, por favor!).

Tem carne, mas com o preço de um bife você compra dois pratos de comida. A carne moída, tanto crua quanto cozida, parece minhoca. O peito de frango normal é mais caro do que o frango empanado. O gosto do frango é igual, o da carne é pior. Tudo que é empanado é mais barato do que tudo que é “normal”. Comer fora as vezes compensa.

E chega de falar de comida. Minhas lombrigas estão saltando aqui, quase indo direto para a mesa lá de casa, implorar comida boa pra Cidinha. Por fim, acho que vou engordar 39 quilos no primeiro mês de volta ao Brasil. 

18/11/2012

Uma experiência proibida


Alô você que tá achando que esse post será sobre safadeza e sacanagem! Errou, meu amô! Esse post relatará lindamente uma experiência que tive aqui na última semana.

Envergonhadamente, mais de um mês depois de estar em Dublin, consegui um mapa da cidade indicando os principais pontos históricos da cidade. Vale contar que o mapa de Dublin todinho é o mapa do centro de São Paulo. O mapa é a inspiração para desbravar a cidade e conhecer mais a história do lugar que me abriga.

Durante uma observação do mapa encontrei uma construção de 1541, chamada King’s Inns. Visto isso, fui até o nosso amigo Google para saber mais da história do lugar e o que era. E então descobri que o King’s Inns é a instituição de ensino mais antiga da Irlanda. Compartilhei a descoberta com as amigas e no dia seguinte fomos descobrir a beleza do lugar.

Fomos lá no meio da tarde, umas 16h – essa é a hora que começa a escurecer aqui no inverno. O lugar é realmente muito perto de onde moramos, não mais do que 10 minutos a pé. Por fora a construção é maravilhosa, e como o Sol já se punha, a iluminação deixou o lugar mais bonito. De fora, podíamos ver que haviam pessoas lá dentro e luzes acessas... Claro que a nossa curiosidade exigiu que entrássemos lá. E é aí que vem a parte proibida!



Não tinha um guarda, nem ninguém inspecionando a segurança do lugar (o que é de se esperar em lugares tão antigos e cheio de riquezas históricas). Nós tentamos abrir todas as pesadas portas que encontramos, e com muita força conseguimos abrir uma porta. Entramos! Foi como em um filme de terror, em que os estudantes curiosos entram onde não devem e quando fecham a porta percebem que estão em uma época antiga.

Só tinha um senhor lá dentro, o encontramos quando nos deparamos com um salão enorme, com mesas organizadas para um jantar formal. Ele assustou a gente, porque parecia uma estátua, mas não disse uma palavra para nós. Subimos as escadas, e demos de cara com um quadro desses que parecem que os olhos se mexem – assustador! Encontramos uma sala de conferência e no lance seguinte de escadas, encontramos um salão incrível, onde com certeza não poderíamos estar!

Esse salão tinha duas lareiras, que estavam acesas, com poltronas de couro em torno das lareiras. Lá também tinham bebidas alcoólicas (é, não deveríamos estar lá), e a decoração era da mais antiga que já se viu. Tapete desses que tem 500 anos, quadros de 1600 e tudo do mais antigo e bem conservado. A tensão era tanta que pisávamos com as pontas dos pés, sussurrávamos e tirávamos fotos com rapidez com medo de sermos pegas! Não bastasse o medo de sermos deportadas, estávamos com medo de passar a noite por lá, caso alguém trancasse a porta que entramos.



Ouvimos um barulho na parte de baixo e saímos correndo, e graças ao bom anjo da guarda, a porta estava aberta. Saímos tensas, mas rindo muito pela experiência proibida. E sabe o que é pior? Queremos voltar lá para analisarmos tudo com mais calma.

11/11/2012

Novas experiências e mudanças


No último post aqui no EU QUERO QUE VOCÊ LEIA, eu falei sobre a parte sentimental do intercâmbio (e fiz um monte de gente chorar. Ô gente, isso aqui é pra rir, não é pra chorar não, uai!). E aí fiquei pensando que não falei sobre as experiências e mudanças, que são muitas no primeiro mês.

De tudo, de tudo, a mudança mais radical é ter que prestar MUITA atenção no que falam para nós. Me sinto quase surda! Arregalo os olhos, aguço os ouvidos e me aproximo da pessoa, e ainda assim tenho que dizer “sorry?” e a pessoa repete, aponta, desenha... Até entendermos o que estão falando. Mas, a cada dia essa dificuldade diminuiu um pouco.

Outra coisa que muda, e muito, é não ter mãe! Era lindo chegar em casa e ter comida quente e gostosa, ter sempre roupa lavadinha, e ter sempre um colinho pra descansar, desabafar e rir. Nos dias da semana chego em casa da escola quase comendo as portas do armário de tanta fome, mas ainda tenho que esperar meia ou uma hora para comer. A roupa suja vai toda na máquina, o que é fácil, mas ainda fico em dúvida sobre qual botão apertar e quanto sabão despejar. Também nunca sei qual é o lugar do sabão e qual é o lugar do amaciante!

Limpar a casa e mantê-la organizada, para mim, não é muito sacrifício, porque sou metodicamente organizada. Mas as vezes dá preguiça, é fato. No meu ponto de vista, saudade e faxina tem tudo a ver! Porque quando bate aquela saudade louca de voltar para casa, sem mais nem menos, começo dar uma varrida em casa, por exemplo, para esquecer da dor que mora no meu coração.

Por último, e mais difícil: a convivência! É um exercício diário de paciência e disciplina – nada fácil! Cada um tem uma mania, lava a louça de um jeito, um dorme demais, outro limpa demais, e acaba que nessas diferenças de comportamento alguma coisa incomoda e pode estressar. O jeito é respirar fundo e perceber que tem coisas em nós mesmos que incomodam os outros.

Respiro muito por aqui, mais do que o normal e necessário para sobreviver. Hehehe, piadista! Mas, não acho certo descontar nos outros minha impaciência, só porque ACHO que o jeito que faço é o melhor.  Percebo que é aí que mora o segredo do amadurecimento proveniente no intercâmbio.

Para finalizar, um vídeo do nosso primeiro dia lavando roupa:


01/11/2012

O primeiro mês


Há um mês, nessa mesma hora, eu estava abraçando muito aquela mulher baixinha, de cabelos de índia, que me colocou no mundo no dia 11 de fevereiro do último ano da década de 80. Ela chorava quase que mais do que eu chorei quando fui obrigada a acordar e abrir os olhos para o mundo. Ela não queria deixar que a sua filhotinha caçula saísse debaixo das asas dela. 

Hoje, há um mês de saudade e muitos quilômetros de distância, eu não sei o quão sensata foi a minha atitude de dar meu grito de independência. Sinto falta do meu Cidão – como gosto de chamá-la pela contradição ao pequeno tamanho.

Nesse mesmo dia eu abraçava aquele barrigudo, de bigode grisalho, que me deu o sobrenome que eu amo (apesar da piadinha: você não vai ficar velha nunca!),  e que me ensinou a ser forte e ambiciosa. Quando eu (acho que) consigo esconder todas as minhas tristezas e revoltas dentro do coração e da cabeça é que me dou conta como sou realmente filha do meu pai. No dia 01 de outubro de 2012, ele não chorou no aeroporto, e também não me abraçou forte para não provocar as lágrimas.

Eu também abracei muito aquela gordinha pentelha, que me irrita até hoje, e que se acha a filha especial porque foi filha única por dois anos. Ela disse para eu aproveitar, aprender inglês para ensiná-la. É claro que ela tinha que se despedir de mim dando alguma ordem! Não é a toa que eu a chamo de Sargenta.  Mas, por incrível que pareça, sinto falta dela mandando eu ir lavar a louça do almoço de domingo. 

E eu também sinto falta daquele careca, forte e tatuado que um dia achei perdido em um bloco de carnaval de uma cidade pequena, que foi dispensado logo que revelou seu nome, mas que conquistou o meu coração quando contou a primeira piada – tão bestas quanto as minhas próprias piadas.

Quando penso que há um mês não tenho esses abraços e todo esse carinho, logo tenho vontade de fazer as malas e voltar para minhas terras tupiniquins e para o colo da família.  Mas rapidamente me lembro do tanto que almejei o que hoje vivo aqui. Eu quis viver o frio, viver lavar roupa, viver fazer mímica para entenderem meu inglês, e viver trocar a família inteira pelas duas melhores amigas que alguém pode ter.

É claro que as amigas não tem a barriga do meu pai, o pouco tamanho da minha mãe e o jeito pentelho da minha irmã. Elas também não têm o braço forte do namorado. Mas têm corações capazes de dividir qualquer dor que a saudade faça a gente sentir, e transformam qualquer sofrimento em gargalhadas incontroláveis.

Inclusive, devo dizer que nesse primeiro mês, rir foi uma coisa que a gente fez bastante. Rimos por não entendermos o que falam para nós, rimos quando compramos chocolate por um Euro, rimos quando a saudade doeu muito no primeiro domingo fora de casa, e rimos todas as vezes que o frio nos fez ter vontade de chorar. Pois é, quem diria que sentiríamos saudade desse calor matador do Brasil?!

Se for pra continuar falando de saudade, ficarei horas aqui escrevendo milhões de parágrafos sobre tudo o que já deu para dar falta –e muita – por aqui. Mas de tudo de tudo, o que a gente sente falta mesmo, é disso aqui: