27/12/2012

15 dias e 10 quilos


Prezada gente brasileira que acha chique viajar pela Europa,

Venho por meio deste, comunicar-lhes a dificuldade que é viajar pelas redondezas deste antigo continente. O quesito viagem requer muitas fotos, o que exige muitas roupas bonitas e elegantes. Portanto, devo avisar que a companhia aérea que oferece preços acessíveis (ainda que em Euro) só é realmente acessível se você leva uma bagagem contendo apenas dez quilos.

E COMO É QUE A GENTE PODE SER CHIQUE COM DEZ QUILOS DE MALA? Não dá, gente! Não dá!

Um homem pode ser feliz apenas com uma calça jeans e a troca de cuecas e camisetas. Ninguém vai se preocupar se o homem aparecer com a mesma cara e roupa em todas as fotos. Mas nós, lindas mulheres, além de ter que trocar a camiseta e a calcinha também temos que trocar o cachecol, a calça, o batom, o óculos, usar meia-calça, short e saia. E pronto, só de narrar isso já deu dez quilos de mala. Sem contar o perfume, o xampu, o lencinho umedecido...

Não bastasse isso tudo, estamos em pleno inverno europeu. Ou seja, a estação que tinha tudo para ser chique, vai ser um desastre porque eu simplesmente não posso levar todos os cachecóis, casacos e o que mais for chique para sair linda nas fotos e ser admirada com toda a minha elegância brasileira na Europa.

Não sei como sobreviverei a quinze dias de viagem com roupas na mala para apenas CINCO dias.

Por fim, meus caros, a primeira breve trip pela Europa será assim: com os mesmos casacos e cachecóis. O importante é só não se render ao estilo europeu no aspecto do “perfume” deles – que de perfumado não tem nada.

Feliz ano novo, minha gente. E aproveitem suas malas grandes e com roupas de sobra. 

12/12/2012

O Brigadeiro


Nada como dar uma dose carregada de açúcar para a gringada!

Essa é a minha última semana de aula antes da pausa para o Natal. Assim como no Brasil é uma semana mais de enrolação do que de produtividade. Então, minha professora propôs aos alunos que montassem uma apresentação de assunto da escolha de cada um. Escolhi o tema Brigadeiro – o doce originalmente brasileiro.



Comecei com uma estratégia infalível: oferecendo o doce aos colegas de classe, e logo ouvia o típico som da Ana Maria Braga “Hummmm”. E segui contando a história do doce, que logo depois da Segunda Guerra Mundial, alguém no Brasil descobriu a delícia da mistura entre leite condensado e chocolate em pó. Depois o candidato a presidente do país, Brigadeiro Eduardo Gomes, usava o slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro” e não distribuía santinhos, mas sim o novo docinho para os eleitores. E então, o Brigadeiro (o doce, não o candidato) estava criado e nomeado. 

E então papo vem, papo vai... E muitas dúvidas sobre como fazer o brigadeiro! A mulherada queria porque queria saber como é que fazia o tal do doce, quase convidei todo mundo para vir aqui em casa depois da aula para ensinar a dar o ponto nessa delicinha neguinha.

Contei também que é bem comum ficar comendo Brigadeiro enquanto a gente assite TV, quando tá de TPM, quando dá vontade, e a minha professora disse que se ela fizesse isso, ela provavelmente morreria de dor de barriga. Dó dos gringos! Não sabem o que é ser feliz com quilos e mais quilos de brigadeiro.

No final da apresentação, abri para perguntas. Mas fui mais esperta e enchi a gringada de brigadeiro na boca e ninguém queria saber de mais nada além de saborear o negrinho. Hahahaha! Mas ai o pessoal perguntou umas bobeirinhas lá e ainda disseram que cozinho muito bem – ô gente, mas Brigadeiro não é segredo para brasileiro nenhum!

O mais bonitinho foi a quantidade de vezes que eles agradeceram por ter levado alguma coisa para eles. Os coreanos sorriem, fecham os olhos mais do que o normal e dizem: “Thank you, Latixia, thank you very much” (Latixia é o que deveria ser Letícia). E fiquei muito feliz de ter agradado os estrangeiros com um gostinho tão doce e comum no Brasil. 

06/12/2012

A bolsa de água quente




Os viciados em Facebook assim como eu viram minha mais nova aquisição aqui no Dublin: minha bolsa de água quentinha, quentinha. Meu namorado que me perdoe, mas gostaria de atualizar meu perfil no Facebook para “Letícia Dal’Jovem está em um relacionamento sério com sua bolsa de água quente.”

Comprei esse supérfluo para amenizar minhas infinitas dores de cabeça que sinto aqui, que são piores do que qualquer dor de cabeça que eu já tenha tido na vida. Essa dorzinha sem fim é causada pela sinusite que me acompanha desde a adolescência. É a Letícia sentir frio e tomar vento no rosto, que a sinusite faz uma visita. Sim, sim, sou quase um bebê. Fora esse detalhe, devo ressaltar que em Dublin é meramente impossível não passar frio, muito menos não tomar vento.

Bem, explicado o porquê da compra da bolsa de água quente, devo dizer que desde de domingo estou “in love", ou apaixonada – como quiserem – pela minha bolsinha de bolinhas pretinhas. Na distância do fortão, a bolsa de água quente virou meu novo cobertor de orelha.

No início só aproveitava para amenizar a sinusite. O frio foi aumentando e comecei a esquentar o pé, a mão, a coluna, o joelho, e o resto do corpo todo com a delícia da quentura da bolsa térmica. E foi nesse processo que comecei a me apaixonar pela bolsa de água quente.

Minha mais nova descoberta foi que deixar a bolsa debaixo da coberta junto comigo, a mantém quente a noite inteira! Isso não é incrível? Sim, isso é incrível, cara população que sofre de frio e sinusite. Noite passada acordei com dor de cabeça no meio da madrugada, quando notei que a bolsa ainda estava quente, taquei a danada na minha testa e assim meu problema foi resolvido. AMAZING! (adoro essa palavra, acho chique).

E então, é isso. Essa história de desapego aos bens materiais foi para o espaço com a compra da minha bolsa de água quente. Enquanto o frio continuar dando amostras grátis do quanto ele é torturante, haverá amor pela minha bolsinha de água quente. 

01/12/2012

O segundo mês


E então mais um mês se passou. Agora faltam só mais quatro meses (eu acho - eu sei contar gente, mas não sei prever o futuro). Tem dias que eu conto os minutos para o intercâmbio passar logo. Mas tem dias que eu quero que passe devagar para eu poder aprender o máximo sobre tudo que vejo por aqui, desde o inglês até a cultura de todo mundo.

O primeiro mês foi só saudade. Tudo o que era novo que eu via e vivia, eu pensava nas pessoas amadas que ficaram no Brasil, e desejava o tempo todo que eles estivessem aqui comigo. No segundo mês a saudade continua, e aumenta, mas a gente aprende a conviver com ela. O que vem no segundo mês são as novas impressões sobre o intercâmbio.

Nesses últimos 30 dias eu percebi que essa coisa de morar em outro país não serve só para aprender um idioma. É obvio que a gente aprende a cultura do país em que vive, e fica mais educada do que o normal, pelo simples medo de ser deportada. O que não é obvio é que o intercâmbio é um processo acelerado de amadurecimento.

A convivência dentro de casa faz a gente ter mais paciência. Aprendi com a força do pensamento que ficar estressada não vale a pena. O negócio é ter paciência, respirar, contar até 20 e seguir com paciência, humildade e resignação. Como já diria a plaquinha de um lugar especial e um post it que tinha na mesa do trabalho “O silêncio é uma prece”. E a prece faz a gente chegar longe com a paciência.

A diversidade cultural encontrada dentro da sala faz a gente aprender a respeitar o próximo, põe fim no preconceito. Os exercícios de conversação nos fazem aprender sobre a cultura de cada um e perceber o quanto o mundo é grande. Paramos de achar o outro esquisito quando pensamos que sou completamente esquisita demais para eles. Afinal essa coisa de rir de tudo e rir o tempo todo é coisa de brasileiro e de turco (os turcos gargalham na sala quando erram o inglês).

Fora o crescimento pessoal e o exercício diário de auto-conhecimento, o resto é só saudade. Mãe, vem me salvar dessa comida sem graça! Pai, vem cá pra eu poder sentar do seu ladinho depois do jantar. Gorda, vem aqui pra eu te irritar bastante. Namorado, vem aqui pra me esquentar. Amigos do teatro, vem aqui pra gente rir e chorar ao mesmo tempo. Saudades de todos!