25/12/2013

Foi Natal

                                                    
Amanheceu dia 24. Mulheres na cozinha, famílias esperando anoitecer e crianças ansiosas pelo Papai Noel. A reflexão chegou para todos. Mensagens sinceras e singelas foram distribuídas aos velhos e novos amigos, a todos os queridos. Todo mundo vestiu a melhor roupa que tinha no armário. Bons abraços foram trocados e sorrisos não faltaram. A comilança foi feita e milhões de “Hummmm... Que delícia!” foram ditos.

A saudade se fez presente! Saudade de quem tá longe, de quem já se foi, e até de quem nunca mais se soube. Saudade da saudade que senti no último ano – do frio, das amigas unidas, e do frango que foi batizado Peru. Saudade daqueles anos em que o Papai Noel chegava: misteriosamente me dava uma vontade súbita de ir ao banheiro, e quando entrava em casa, via todos os presentes no pé da Árvore de Natal. Nesse tempo, até enxergava uma luz no céu que parecia o bom velhinho com suas renas indo para a próxima casa.

Presentes foram trocados e todo mundo voltou a ser criança. Todos os olhos brilharam, do caçula da família até o mais velhinho. Agradecimentos foram transmitidos por palavras curtas, pensamentos longos, olhares cúmplices, lembranças dividas e gargalhadas compartilhadas. O amor se fez presente do 24 ao finalzinho do 25.


O desejo foi um só: que toda consequência causada pelo espírito natalino se mantenha por todo ano. Que a gente saiba agradecer de coração todos os dias. Que saibamos retribuir, sorrir, abraçar, refletir e seguir. Que o amor seja maior, com todos, para todos, diariamente.

01/10/2013

1º de outubro de 2012

Passou como um filme na minha cabeça. Parece que foi ontem.  Lembro que acordei cedo e sai com o pai para resolver os detalhes no banco. Voltei para casa correndo, o almoço já estava pronto e, claro, eu já estava atrasada. O namorado chegou em casa com lágrimas nos olhos, não me deixava escolher se acolhia ou se chorava junto. Almoçamos um belo prato de arroz, feijão preto, couve e angu – tudo o que eu temia ficar seis meses sem.

No meio do caminho encontramos a minha irmã, que também estava atrasada. Na espera pela sis, a Juju e a Vivi iam me avisando onde estavam – e só eu estava muito atrasada. No carro, duas malas grandes e cheias, a mãe, o pai, a irmã, o namorado e sensações novas no meu coração. Expectativa, ansiedade, medo, felicidade, saudade, calor e frio... Era a realização de um grande sonho.

O voo saia às 19h, a fila para o check-in estava imensa e a ansiedade pulsava na veia. Já eram mais de três da tarde e eu ainda não estava no aeroporto. A Giulia me ligava: “Lê, no Portão X”, “Lê, tá uma fila imensa”, “Lê, parece que deu um atraso em Paris, nosso voo só vai sair à uma da manhã”.

As famílias ficaram com as três viajantes até o começo da noite. Mães e pais nos observavam cheios de orgulho e de saudades, já! Eu levava comigo o pingente que a mãe me deu: um pequeno coração, e disse "é pra você saber que meu coração estará sempre com você". Também tinha um anel do namorado, uma carta da irmã (que só descobri quando cheguei em Amsterdam), um São Jorge na carteira, as preces e a torcida de tanta gente querida que acompanhou a conquista desse sonho.

Todo mundo chorou, menos o meu pai. Sr. Dal’Jovem se fez de forte. Minha irmã saiu do aeroporto firme para segurar a mãe. A mãe e o namorado choraram juntos. Eu me fiz de forte – porque sou filha do meu pai – mas chorei os seis meses de distância.

Depois de tantas lágrimas, tanta espera, tanto caçar o que fazer no aeroporto e cansar de ficar com notas de Euro na cueca, o avião chegou. Avistamos a Europa, a saudade veio e não passou. O sonho foi vivido entre trancos e barrancos, com muita chuva, vento, frio, união e a afirmação da eterna amizade de duas pessoas incríveis que descobri lá no começo de 2007. Fácil só nós sabemos que não foi, inesquecível só nós sabemos o porquê. Vale o que ficou na memória e no coração.

As três viajantes no aeroporto de SP

20/08/2013

24h de lentes de contato

Pela primeira vez, em 17 anos, soube o que é enxergar bem sem nada apoiado no meu nariz. Me senti uma pessoa nova. 

Na tarde de ontem saí do oftalmologista feliz e impressionada com a mágica que as lentes de contato causam em um serzinho com astigmatismo forte e leve miopia. Observei tudo o que estava longe com muita atenção, inclusive eu mesma. Foi a primeira vez que pude observar, de longe, o tamanho pequeno dos meus olhos – iguaizinhos aos do meu avô.

O Sol estava alto, fiz questão de colocar os óculos de sol para ter o prazer de enxergar a vida e a claridade ao mesmo tempo. Antes sempre enxergava ou a vida ou a claridade, em situações extremas usava dois óculos. Tive o prazer de não precisar me preocupar em trocar de óculos para enxergar o nome do ônibus.

De longe vi um ônibus amarelo e pensei “aquilo é um ônibus amarelo! Não é uma mancha amarela que cruza a avenida”. Sorri sozinha. Quis ler todas as placas que estavam longe: Marginal Pinheiros, Metrô Faria Lima, Avenida Pedroso de Moraes. Me fez lembrar quando eu era criança e estava aprendendo a ler, pedia para o pai dirigir devagar para dar tempo de ler na estrada: RANNNN-CHOOO DA PAAA-MOOO-NHAAA!

O mundo ficou mais bonito. Na Teodoro Sampaio, a obra interminável, pela primeira vez, não me incomodou. Achei bonito enxergar de perto e de longe a mistura da poeira com o uniforme dos operários, meio sujo, meio azul, junto com a cor não identificada do trator (o daltonismo segue sem cura).

Enquanto caminhava até o ponto de ônibus me senti naquela cena do filme “O fabuloso destino de Amelie Poulain”, em que ela pega no braço de um cego na rua e o leva até a porta do metrô, enquanto descreve tudo com agilidade e riqueza de detalhes. Essa era eu comigo mesma nas primeiras sensações com as lentes de contato.

O dia seguiu. E todas as vezes que me via em algum reflexo achava estranho, faltava alguma coisa no meio do rosto. Minha irmã, que passou nossa infância inteira me chamando de quatro olhos, ontem a noite ficou me chamando de “estraínha”. – Tá estranho, Lê, é esquisito ver você sem óculos.

Quando tirei as lentes pela primeira vez, a reação imediata foi “Gente! Eu enxergo mal demais!” Mal via o olho direito. Foi o fim do feitiço. O mundo ficou destorcido de novo. Sorri feliz quando me reencontrei com o bom e velho óculos de grau, e me senti a Letícia de sempre.


Feliz de quem sabe apreciar a beleza das novas experiências.

12/08/2013

Pareço com ela

- Mãe, sabe se o pai gostou do tênis?
- Ah, deve ter gostado, Lelê. Ele saiu usando ontem... Seu pai é igual você, não vê a hora de usar as coisas que ganha.

Ela sempre arruma alguma coisinha para dizer que sou igualzinha ao meu pai. A ansiedade de desfilar com o presente, a impaciência com lugares excessivamente cheios, o desgosto de conversar no telefone, a preguiça de passear no shopping, comprar sem olhar o preço e, claro, o daltonismo. “Você é igualzinha ao seu pai”, ela sempre diz isso, mas esquece de observar o tanto que pareço com ela.

Me lembro da adolescência, quando comecei a fazer o que queria e errar com mais frequência, que a gente brigava todo mês ou o mês inteiro. Eram dias sem se falar. Na época eu pensava: “Nada a ver, nada a ver! Não me pareço nada com ela, é por isso que brigamos tanto”. Hoje compreendo diferente.

Ficamos irritadas quando o atraso dos outros atrapalha a nossa rotina. Dá nervoso de gente sem atitude. Falamos pela pessoa quando alguém fala muito devagar ou quando contam situações com muitos detalhes (desnecessários). Falamos “bem feito” quando alguém se dá mal em alguma coisa que já tínhamos avisado que não ia dar certo. Somos bravas. Somos excessivamente transparentes. Não sabemos disfarçar quando não gostamos de alguma coisa ou de alguém. Cansamos se ficamos entediadas – mas um dia frio, cheio de preguiça, sempre cai bem. Não precisamos de álcool e drogas para fazer o ridículo: felicidade basta, e resulta em lutinha na cozinha. Disputamos quem consegue manter a perna na altura maior. Ela pede pra eu pegar as xícaras, porque sou alta, eu peço para o namorado, porque ele é maior. Detestamos academia, preferimos Pilates e exercícios na água. Ela reclama dos fios brancos, eu reclamo dos fios armados. Não passamos tanta maquiagem. Saímos do banho e, obrigatoriamente, passamos no rosto creme hidratante de noite e protetor solar de manhã.  Gostamos dos mesmos perfumes. Preferimos sapatos baixos. Gostamos de andar no mato. Meus olhos ficam como os dela quando sorrio. Aprendemos rápido tudo o que não presta: gíria, música ruim, piada maliciosa. Nos admiramos com a voz da Nana Caymmi e sempre saímos do show comentando do tanto que ela é arrogante – “mas canta bem, isso não dá pra negar”, comentamos. Reclamamos do tanto que é duro ser mulher quando temos que fazer a sobrancelha. Sentimos MUITO frio no pé. Temos dor na coluna e sinusite. Sempre falamos que na outra vida nos perdemos na boemia. Aprendi a gostar de Botero, Picasso, Miró e tantos outros com a mãe.

Quando morei em Dublin percebi que sou gêmea dela. Lavava a louça, secava e guardava – igualzinho ela faz em casa. Quando me dei conta que fazia isso foi que percebi que sou realmente filha da minha mãe.

A gente herda os hábitos.


09/07/2013

É feriado em SP


Todos paulistanos comemoram a graça de não precisar ir trabalhar nos noves de julho de todos os anos. E todos os anos eu escuto “é feriado de que? – Sei lá, é feriado!!!”. Que raio de paulistanos da gema são esses que desconhecem o porquê do dia de folga?

O dia nove de julho representa a Revolução Constitucionalista de 1932. Tá, e daí? E daí que essa revolução objetivava a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a desejava uma nova constituição para o Brasil. E daí também que o 09/07/1932 é o dia que marca o início dessa reviravolta que São Paulo promoveu.

Uma coisa importante para todo bom paulistano saber é que a Revolução de 32 foi o primeiro grande ato contra o governo do GV e o último conflito armado do Brasil. (Opaaaa! Vale lembrar que a bala de borracha que feriu muuuuitos paulistanos recentemente é considerada “arma não-letal”, mas só a PM e o Malddad acreditam nisso. Continuando...)

Depois de 87 dias de combate sangrento em SP (terminou 04 de outubro), a revolução registrava mais e 900 mortos. Estimativas sinceras, que não contam com o jeitinho brasileiro, resultam cerca de 2200 mortos. O resultado foi a retomada de paulistas no governo do Estado e, dois anos depois, uma nova constituição foi promulgada.

Toda manhã de 09 de julho acontece o desfile cívico no Ibirapuera. Participam desse desfile: veteranos de 32 e familiares, diversas unidades da Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Civil Metropolitana, representantes das Forças Armadas e escoteiros.

Sim, escoteiros! No tempo em que eu participava ativamente do movimento escoteiro, dei uma desfiladinha. Os escoteiros tiveram participação voluntária na revolução, recolhendo doação de alimentos e curativos e distribuindo aos necessitados. Ressalto a parte da contribuição como enfermeiros. E aproveito para agradecer ao 1º Grupo Escoteiro São Paulo, que me ensinou a valorizar todo Nove de Julho.

Ah! O feriado de 09 de julho já é comemorado desde 1997.


Bom feriado! J



21/05/2013

Notícias mineiras


Trago notícias de Minas Gerais. Diretamente da terra onde nasceram os dois velhinhos que colocaram minha menina de cabelos de índia no mundo. E vinte e poucos anos depois da chegada dela, cheguei eu. Estive em Muriaé, nessa terra quente onde todo mundo é sossegado, mas tem pressa de ir embora quando faz uma visita na casa dos outros.

Lá o galo canta logo cedo. Às vezes erra e canta das três da manhã até o Sol amanhecer. O dono da crista elegante tira mesmo a gente da cama e faz o dia começar. Fui caçar o que fazer: andar pelo pasto (com medo das vacas), tomar Sol na cachoeira, ver as vacas no curral, pensei em pescar, li muitas páginas do livro que levei, catei laranja no pé e fiz suco para o almoço... Mas o que movimenta mesmo o dia são os ensinamentos que só a roça pode te dar.

Já de noite quando o sapo canta, quer dizer que no dia seguinte vai chover. Meu avô me contou que o sapo não gosta de calor, então fica cantando e chamando a chuva. Na quinta o sapo cantou e na sexta choveu.

Aprendi a teoria para caçar um gambá. Compre cachaça e deixe em um prato durante a noite. O bicho vai encontrar a bebida pelo cheiro, vai beber bastante e ficar “gambaleando” por aí. E na moleza do gambá, você vai lá e caça ele. O Sr. Curupira vai ter que criar o AGA – Associação dos Gamboólicos Anônimos.

Também vi um pintinho careca que de tão feio era bicado pelas galinhas. Deu dó. O pintinho sangrava e não saia do lugar. O jeito para salvar o bichinho feio foi passar sal e água na cabeça dele – diz que quanto mais arde, melhor, porque daí cura mais rápido. O pintinho careca não queria comer, então abriram o bico dele na marra e enfiaram fubá molhado goela adentro. Depois o pinto bebeu água sozinho, e ficou tremendo de dor pelo método para curar a cabeça bicada. No dia seguinte o pintinho não deu sinal de vida. Morreu. Não foi enterrado, foi jogado na lagoa e imediatamente os peixes (parentes das piranhas) abocanharam o pinto morto.

Além do ensinamento da roça, tem a tranquilidade do povo de lá. A preocupação é o porquinho que tá prenho, a vaca que parou de dar leite, descobrir qual é o bicho que está comendo os pintinhos e os ovos, o parente que morreu e aquela mocinha, que é neta da Mariínha (Mariínha, não Mariazinha), que se não está grávida, tá pra casar.

Para finalizar, devo citar a coisa mais graciosa: ouvir toda essa prosa com aquele sotaque “exprimidim” e agudo que só um bom mineiro de Muriaé tem. 

23/04/2013

A chegada


Em poucos dias completarei um mês de volta a casa e quero registrar um momento único e muito esperado durante os seis meses de distância.

Era quinta-feira, véspera de feriado em todos os países comandados pelo catolicismo. O dia seguinte seria sexta-feira Santa, e o caos no trânsito já era previsto em São Paulo na data da chegada.

Acordei cedo, quatro horas da manhã, na verdade mal dormi. A ansiedade já estava a todo vapor. Nevava. Pela última vez vestiria o casaco da Adidas que me protegia do intenso frio irlandês. Abracei forte as duas flatmates que me fizeram sorrir tantas vezes, e mais forte ainda as duas amigas que se tornaram irmãs. O taxista brasileiro me buscou em casa, me ajudou com os sessenta e muitos quilos de mala e me deixou no aeroporto por menos de vinte Euros.

Fiz o check-in e minhas malas receberam uma etiqueta vermelha indicando “heavy”, mas pelo menos não ultrapassaram o peso permitido. Horas depois de esperar fazendo nada, entrei no primeiro avião. Estava ansiosa, não via a hora de chegar, e eu ainda tinha 15 horas pela frente.

Em Dublin, o avião precisou tomar um banho com um líquido especial para tirar toda a neve que o cobria. A chuveirada do aviãozinho acabou atrasando um pouco, o que me fez morrer de medo de perder a conexão em Amsterdã. A espera para decolar foi longa, aproveitei para chorar as saudades que sentiria de tudo, apesar de tanto frio e tanta falta da família.

Dormi e finalmente cheguei na terra dos cigarrinhos que fazem ver duendes. Caminhei com o passo mais apertado possível, pois em menos de 30 minutos sairia o voo para o Brasil. Corri, mas ainda deu tempo de parar e comprar uma vaquinha holandesa para a coleção da minha mãe. Ofegante cheguei até o portão que me levaria onde desejava estar.

Tanta pressa para ficar dentro do avião por 12 horas. Dorme. Acorda. Come. Assiste filme. Dorme. Come. Escova os dentes. Assiste filme. Ouve música. Abre a janelinha, fica cega com o Sol claro. Dorme. Acorda. Come. Vai ao banheiro, escova os dentes, toma água, e finalmente duas horas para chegar em SP. Já estava suando frio de ansiedade.

Dormi de novo para ver se o tempo passava. Vinte minutos antes de pousar quase fiz xixi na calça de tanta ansiedade e vontade de chegar logo. Até que vi aquela quantidade infinita de prédio que (acredito) só São Paulo seja capaz de suportar. Finalmente estava em casa, faltava só pegar as malas e correr para o abraço.

A pressa era grande. Mas a fila para sair do aeroporto, depois a fila para passar pela Polícia Federal, e ainda a espera para pegar as malas fizeram com que a ansiedade aumentasse mais. Ficava pensando como a minha mãe estaria me esperando na saída do desembarque, qual seria a reação do meu pai para disfarçar a ansiedade, e me perguntava se a irmã e o namorado também iriam. O coração batia tão forte que parecia que ia parar de repente.

Enfim, mais de sessenta quilos no carrinho e eu, magrela, sem força e cansada do voo, empurrando mais peso do que eu tenho, sozinha. Fui o mais rápido que pude, a ansiedade me comia por dentro, transpirava frio e o choro de emoção já estava engatilhado na garganta.

Assim que sai me deparei com famílias abraçando os recém-chegados.  Olhei para um lado, olhei para o outro e não vi ninguém conhecido.  Pensei “meu pai eu vou achar”, olhei de novo e nada. O sorriso se desfez e o choro desistiu de sair. Nenhum Dal'Jovem estava lá. Comecei a rir sozinha e pensei “Ê família Buscapé!”

Ainda bem que ligação a cobrar a gente não esquece como faz:

...Após o sinal diga o seu nome e a cidade de onde está falando...

- Alô, mãe? Onde você tá?

- Lê? A gente tá estacionando o carro.

- Ah, tá.. Eu to aqui, já cheguei.

- Tá, a gente te acha.

Ainda deu tempo de ir para fora do aeroporto tomar um vento, porque eu morria de calor com 20 graus. Tirei o tênis porque o pé tava quase derretendo e sentei em cima das malas. Então, ouvi um “oi Lê”, e era aquele cotoco de gente de cabelos de índia, que as vezes eu chamo de mãe.

A ansiedade já tinha passado. Já tinha dado muita risada por não ter ninguém a minha espera. O nervoso da chegada se transformou em alegria e bagunça: pulei no colo de todo mundo. Enquanto abraçava a mãe também pulava. Montei no colo da irmã, do pai e do namorado. E continuei pulando pelo aeroporto, e a mãe dizia:  “Para Letícia, tá todo mundo olhando”, e ela ria e chorava ao mesmo tempo.

Essa é a graça de ser Dal’Jovem: fugir do comum; ter uma família que não te espera no aeroporto seis meses depois de distância. (Mas a culpa foi minha de ter escolhido voltar bem na véspera de feriado, e ter feito os quatro amores enfrentarem mais de três horas de trânsito na Marginal).

17/04/2013

Eu voltei, eles voltaram


Já estou mais acostumada com essa coisa do “voltar”. Têm três semanas que conto para quem encontro as mesmas coisas: os dias gelados e cinzas, que clareava às 8h30 e escurecia às 16h, que toda comida era industrializada, que perdi uns sete quilos, que fiz uma amiga coreana, outra da Arábia Saudita e sinto falta de rir com meu amigo turco. 

- É diferente, né?

- Ah, é! A gente aprende muito com a boa educação que eles têm. Comecei a dar um valor imenso para as coisas que eu posso fazer no Brasil, descobrindo o tudo que minha amiga muçulmana não pode fazer; foi incrível o dia que entrei no banheiro da escola e a vi sem o véu, porque estava ajeitando o cabelo.

E tinham os coreanos e japoneses também, que me ensinaram muito sobre ser educada. Eles agradecem a tudo e muitas vezes. Você faz um elogio sobre o bom desempenho no inglês, ou que o cachecol é bonito, ou se leva um brigadeiro para eles provarem, eles te agradecem mil vezes, e abaixam a cabeça com as mãos unidas, daquele jeitinho típico da Coreia.  

Gosto também de contar sobre os franceses, que são todos arrogantes. São legais, gente boa, mas metidos. Os franceses vão achar que o mundo gira em torno da França eternamente. Ai de quem corrigisse o inglês de uma francesa que conheci – e tinha a cara de pau de dizer que a pronuncia brasileira que era ruim, enquanto ela dizia “flauê” (para flower) e “alrrêdí” (para already).

Conheci os turcos, que podiam ser brasileiros, pela simpatia e pelo bom gosto de ensinar algumas coisas no idioma deles e também por quererem aprender o português. Um deles, todo dia me olhava e dizia “obrigado”. Esse mesmo turco me provou que não dá pra negociar com gente dessa espécie: queria levar três bicicletas por 50 Euros, no duro.

Com tudo isso, fiquei pensando: o que foi que essa gente contou para a família e amigos sobre as três brasileiras quando chegaram na terra natal? Acredito que os franceses vão contar do tanto que nós sorrimos de tudo e o tempo todo – mesmo com aquele frio do cacete. Os asiáticos vão bem dizer sobre nossa falta de vergonha: falamos inglês, errado, mas falamos – o que eles não fazem, porque falam certo, mas não falam.

E o que será que ficou? Fico curiosa... 

03/04/2013

A volta


Que calor é esse que faz nessa terra? Amanhã completa uma semana que voltei para casa, e de tudo, ainda desacredito no calor. Na quinta-feira, quando cheguei, tomei banho, lavei o cabelo, vesti short e regata, enquanto minha mãe e minha irmã vestiam calça e moletom fininho. As duas diziam “Letícia, veste uma roupa que está frio!”. Frio? Frio estava na quinta cedo quando eu deixei Dublin nevando, em um frio de -5.

Eu desacredito no calor e quem já veio me dar um abraço de matar as saudades desacredita na minha brancura. Que eu sempre fui bem branquinha todo mundo sabe, mas a diferença é que eu estou mais branca do que brasileiro que não aproveitou o verão. Se eu tomar remédio na veia, dá pra ver o líquido subir – é sério.

Agora entendo porque os gringos quase morrem quando visitam o Brasil. Essa terra é perfeita. É quente, é clara, tem Sol e tem gente feliz. Mas para quem sobrevive ao inverno europeu, o Brasil é demais (demais de bom).

Além do calor, estou me adaptando à quantidade de carro que têm em São Paulo. COMO É QUE A GENTE NÃO MORRE COM ESSE TRÂNSITO? Cada ônibus, moto, caminhão ou um motorista sem noção que passava perto de mim aumentava meu batimento cardíaco. Reclamei seis meses da monotonia de Dublin, mas SP também não precisava chegar esfregando essa loucura na minha cara. Deu medinho sair na rua.

Fora as mudanças do estilo de vida, forçados pelo tempo e pela cidade, tem a rotina de casa. Estava acostumada a fazer as coisas quando eu queria, quando precisava, e não quando a mãe mandava. Morri de saudade do meu Cidão, mas agora não sei como reagir quando ela diz “Letícia, você comeu pouco”, “Letícia, troca de roupa”, “Letícia, você tem que comer bem, está pálida”, “Letícia, você não vai tomar banho?”, “Lê, rega as plantas para mim”... Mãe é uma coisa de doido, que não dá para ficar sem.

De bermuda, camiseta e ventilador ligado, segue a readaptação à velha vida.                    

28/03/2013

O sexto mês – o fim


Eu fui uma criança chata. Quando tinha lá meus cinco, seis anos de idade, não ficava com ninguém, só queria saber da mãe. Meus primos mais velhos contam isso rindo da minha chatice e minha mãe sempre diz que eu era mesmo irritante. Com o tempo, mudei. A escola e o escotismo me ensinaram a ser sociável e a viver mais desgrudada da mãe e do pai.

Apesar disso e de tanta vida, ainda aos vinte e poucos anos continuei seguindo a mãe pela casa, pedindo para ela deitar comigo na cama e cuidar de mim como se eu fosse aquela criança chata. E mesmo sabendo desse meu grude todo, quis dar meu grito de independência. Fui para a Irlanda.

Não lembro a primeira vez que chorei de saudade da família, mas me lembro muito bem da dor que o meu coração sentiu durante seis meses. A dor me fez querer voltar imediatamente – várias vezes. Mas não achava justo abrir mão do meu próprio sonho para, simplesmente, aliviar meu coração. Persisti, respirei fundo, confiei, tive fé e completei seis meses.

É claro que sozinha não teria conseguido. A família se manteve presente, quase consegui seguir a mãe pela casa via Skype. Os amigos continuaram me carregando no colo através das conversas do chat do Facebook. E claro, as maravilhosas companheiras de viagem e as novas flatmates foram fundamentais para dar colo e para distrair a cabeça com piadas bobas, que me fizeram chorar de rir.

Tanta saudade e a batalha para não desistir no meio do caminho me fizeram dar valor as coisas simples. Dias de Sol me aliviam, gente sorrindo sem motivo me alegra, um abraço sincero é tranquilizante, vestir só uma calça e uma meia é perfeito. E o principal de tudo: admitir para mim mesma que não sei viver longe daquela mulher baixinha que me colocou no mundo, e daquele homem de bigode que me ensinou a ser destemida.

Seis meses longe de casa me ensinaram muito sobre viver, me fizeram uma pessoa nova, melhor, mais forte e madura. E mesmo nessa escola de ensino intensivo para ser gente grande, continuo sendo aquela criança chata que não larga do colo da mãe. Afinal de contas, é como dizem: temos que ficar sem as coisas para dar valor a elas. E é por isso que hoje volto ao Brasil, com a cabeça feliz pela conquista e o coração sereno pelo colo que irá receber.

Mãe, Pai, Gorda, Juju, Vivi, Tia Marta, Tia Riva, Tio Vanderlei, Tio Beque, Rafa, Má, Lara, Val, Bruno, Marcelle, Jean, Loira, Luís, MUITO obrigada, pelo apoio, pela força, e por acreditarem em mim.

24/03/2013

As flatmates




Em uma gelada noite de janeiro elas vieram conhecer o apartamento. Precisávamos urgentemente de duas pessoas para viver aqui e (verdade seja dita) para dividir o aluguel. Recebi as duas com a mesma simpatia de um corretor de imóveis. Na urgência de uma nova dupla omiti a rapidez que a água quente do chuveiro acaba e qualidade vagabunda da Internet.

Poucos minutos depois da visita (o tempo exato de sentar na cama para contar o que achei das meninas para a Vi e para a Giu), recebi uma in box dizendo “Oi Letícia, vamos ficar com o apartamento. Amanhã voltamos para definir os detalhes”. Se eu não tivesse gostado delas à primeira vista, eu não teria tido nem tempo de arrumar uma desculpinha esfarrapada para encontrar outros moradores.

Mal sabia eu que a pressa delas por um novo lar era mais urgente do que a minha busca por novos flatmates (o nome dado para a pessoa que divide o apê com você).

Então em fevereiro começamos a morar juntas. Cinco mulheres: quatro de São Paulo e uma da Bahia. Logo, imagine a quantidade de vezes que a conterrânea de Caetano Veloso não brigou com a gente quando perguntávamos: Essa roupa tá muito baiana? A gente tentava não rir pra ver se a piada passava despercebida, mas ela sempre notava e brigava com a gente. Eu disse pra ela: Val, quando algo estiver brega, você tem que dizer “Tô muito paulista?”.

A quarta elementa de SP faz uma comida tão cheirosa quanto a da nossa mãe. Eu disse várias vezes “É a Lara chegar na cozinha e eu ficar com fome”. Não descobri até agora o que é que ela coloca na comida, mas cheira muitíssimo bem. Sem contar os petisquinhos preparados por ela e pela Vi nas (muitas) noites de sexta ou sábado que resolvíamos ficar em casa.

E normalmente, a noite era o período da família feliz. Sempre me programava para estudar antes das 18h porque sabia que as meninas chegariam por esse horário, e a partir daí era só conversa e risada. A Doriana poderia estar na nossa mesa porque esses momentos eram (ainda são) um típico comercial de margarina.

Tanta boa convivência só poderia resultar em uma coisa: planos para quando todas estiverem no Brasil. Agora queremos passar réveillon em Morro de São Paulo, carnaval em Salvador, final de semana em Boracéia na casa da Sandrão, vamos fazer churrasco em Mogi das Cruzes, gastar dias de descanso em São Luiz do Paraitinga, comer macarronada na casa da Giu e hambúrguer do Dal lá em casa.

Por fim, nenhuma de nós imaginou que na urgência de novas flatmates e na pressa da in box do “Oi Letícia, vamos ficar com a vaga” iria resultar em uma amizade tão boa e cheia de sorrisos simples e sinceros. O que fica hoje (ou melhor, a partir do dia 28) é só saudade.

23/03/2013

O Big Brother Dublin


Faltaram câmeras atentas para gravar o nosso dia a dia e as gafes frequentes das moradoras do Flat 2. Se morar aqui fosse mesmo um BBD a audiência seria alta. Teve briga, festa, muita risada, grupos unidos falando mal dos outros moradores e novos integrantes no meio do programa.

Prefiro deixar a parte ruim de lado e lembrar das risadas. Quantas vezes nos reunimos na sala/cozinha, choramos de rir e falamos: “Caraca, tinha que ter uma câmera ali pra filmar isso”. Ou então, depois do almoço, os papos filosóficos sobre a vida, a vivência na Irlanda e a ansiedade da nova vida no Brasil. Ê Bial, você tinha que ter gravado isso tudo.

O editor do programa poderia fazer um especial sobre a quantidade de meias que foram furadas no ferrinho que separa o meio metro da cozinha do resto da sala. Era ir colocar a panela no fogo e expressar, “Ai caralho!” e checar que a meia tinha sido mesmo furada. Também dava para fazer um especial sobre ‘Dias de Pijama’. No carnaval fizemos “Bloco do Pijama” e não saímos do sofá.

A prova do líder era sempre prova de resistência: o banho. O banho dura cinco minutos e meio com água quente, e se você ainda quer lavar ‘as parte’ em mais tempo do que isso, divirta-se com água gelada. O vencedor deveria ser aquele que tomou banho só com água quente. Nunca ninguém ganhou.

A nossa clausura era praticamente a mesma do reality show. O frio nos obrigou a passar dias em casa (de pijama, claro). Saímos apenas para ir ao mercado e às aulas, era suficiente para não querer passar nem mais um segundo na rua. E o fato de ver a família apenas pela telinha do computador é a mesma coisa que a noite de paredão. 

Não tivemos um Bial, tivemos um Gerard (leia-se Gerrá). Mas o nosso Bial nunca veio com palavras bonitas ou festas temáticas. O nosso Bial, na verdade, estava mais para Seu Barriga. Ele vinha todo mês, um dia tomou café brasileiro e outro dia comeu um beijinho típico das festas de aniversário. Uma vez nos deu panelas novas, e outro dia nos deu um litro de cloro, e todos os meses teve paciência de ouvir o nosso inglês e dizer “vocês estão mais confiantes para falar”.

Não tivemos câmeras, mas tivemos post no EU QUERO QUE VOCÊ LEIA. Mais que isso só a memória para contar história. Agora já estamos na semana final do BBD, eu só espero ansiosa pelo discurso de eliminação do Bial (Bial Dal’Jovem, que foi quem sobrou para digitar histórias).

18/03/2013

St. Patrick's Day


Mais um domingo na Irlanda, mas dessa vez um domingo diferente: o penúltimo por aqui e dia da festa mais conhecida do País. O dia amanheceu típico: frio e com chuva – chove o ano inteiro por aqui (se deixar, o tempo todo). Deu preguiça de sair da cama, mas a festa começava cedo, não dava para enrolar muito. Carnaval que começa cedo? Isso não faz sentido.

Eram seis mulheres para tomar banho, trocar de roupa, passar maquiagem e vestir a camisa do St Patrick’s Day. A arrumação foi demorada, não muito conturbada e bem divertida. Me vesti de bandeira: meia calça laranja, camiseta branca e suéter verde. (Na verdade não sei se saí de Irlanda ou de cantina italiana, porque suspeito que minha meia era de um tom vermelho-alaranjado, e não laranja como desejado).

Não bastasse a casa das seis mulheres, no caminho ainda acrescentamos na “caravana do Flat 2” mais duas amigas e os três futuros moradores desse apê que ainda me abriga. A festa estava feita! Não precisaria nem de St Patricks para a gente se divertir.

Na rua o desfile já acontecia. Tinha bailarina, carro alegórico e banda – mas quase não dava para ouvir a música e ver o desfile. Tem gente que leva escada para conseguir ver a coisa das alturas. A galera daqui fica atrás da grade só vendo a banda passar, muito comportado. Os brasileiros e os festeiros de plantão vão descendo a avenida, acompanhando o desfile, e fazendo mais barulho que a banda. Eu cantei as marchinhas do carnaval de São Luiz do Paraitinga para animar a festa.

O desfile é uma coisa legal, mas que acontece na velocidade da luz. No mesmo instante do término, o pessoal que teve que trabalhar na data começa a tirar as grades da rua e o povo todo segue para o Temple Bar. Na avenida a festa continua, mas promovida pelos bagunceiros...

Daí é nessa hora que você anima tanto o dia do Santo que o turista quer tirar uma foto com você, sem imaginar que você não vê a hora de voltar para a pátria amada. O momento também é de ensinar as irlandesas a falarem “nós somos piriguetes” (acesse o link), de se unir a outros brasileiros para fazer festa, e dizer para o turista qualquer palavra ou frase que você saiba na língua dele.

Em um segundo que você para de fazer bagunça, você nota que seu pé está molhado e congelado, sua mão está dura de frio, seu nariz está morto, e que sua dor no dente do siso passou porque o frio está doendo mais. E é assim que o frio acaba com a sua festa e você volta para casa no passo mais apertado possível, na pressa de se aquecer.


Por fim, devo admitir que o Saint Patrick’s Day valeu pelos seis meses. E que esse é o único e bom motivo para você vir para cá (já que dei cinco motivos para não vir para cá, agora te dou um só para você vir).

10/03/2013

5 motivos para NÃO vir para Dublin


Vamos falar de Dublin enquanto há tempo. Agora não tem mais novidade, é o tempo de fazer retrospectiva, análise, recomendação e conclusão. E vou começar pelo lado pessimista da coisa.

Morar na Europa é atraente e chique. Para quem quer aprender inglês, a Irlanda é um dos países (aparentemente) mais adequados para isso, já que o visto é fácil, é possível trabalhar e estudar e ainda tem a vantagem de poder viajar pelo continente (que é a parte boa daqui). Mas, é como dizem: na prática, a teoria é outra. E a Irlanda não é assim tudo aquilo que eu sonhava para a minha vida europeia.

1. O inglês dos irlandeses é ruim: quando eu cheguei na Europa desci primeiro na Holanda. Já tinha uns dois ou três anos que eu tinha parado de estudar inglês, e ainda assim consegui entender muito do pouco que me falaram. Mas, foi chegar em Dublin e não entender nem o número do ônibus que o senhor me indicou para chegar na minha casa. Hoje entendo o inglês dos ingleses, dos franceses, dos árabes... Mas ainda faço cara de queijo quando escuto o inglês dos irlandeses.

2. Tudo fecha cedo, menos o Tesco: para você que, assim como eu, é movido e apaixonado pelo ritmo 24horas de São Paulo, não recomendo nadinha vir para Dublin. Se tem uma coisa que eu amo, é enrolar o dia todo e, de repente, a noite ir dar uma voltinha no shopping. Aqui não dá para fazer isso porque o expediente das lojas encerra às 18 horas. A única coisa que fica aberta até mais tarde é o supermercado, o Tesco. Que graça tem ir passear no supermercado onde nada é gostoso?

3. A comida não é boa: meu conhecimento sobre agricultura é quase nulo, mas sei que no frio nada cresce e que o solo úmido demais também não é bom para as plantinhas. Praticamente tudo vem de outros países e as coisas duram super pouco, porque devem tacar muitos aditivos químicos para fazer a coisa durar. Outra coisa: a carne é cara, é feia, e é de cavalo. O frango é caro, mas quebra um galho. O peixe também é industrializado – e eu que achava que aqui teria muito peixe porque aqui é uma ilha. Pelo menos, o chocolate é bom e barato.

4. Viver custa caro: todo brasileiro chega na Irlanda achando que vai viver em Euro pagando pouco. Mentira. Dos países que visitei, pude observar que a vida por aqui é das mais caras. Até a lojinha de souvenir daqui tem a cara de pau de ser a mais cara entre os países que visitei. A compra do mercado é um roubo! Enquanto um vinho sem marca custa seis Euros por aqui, na Espanha ele custa dois Euros.  A passagem de avião também é mais cara porque precisamos de mais combustível para voar da ilha até o continente.

5. É frio o ano inteiro: todo mundo sabe que minha vivência por aqui foi toda invernal, mas conheci brasileiros que moram aqui há mais de um ano e me afirmaram que aqui é frio o ano inteiro. O dia mais quente do ano faz 20 graus – o que faz os irlandeses passarem mal. Especialmente no inverno, o Sol é uma raridade, e isso torna a vida deprimente. Fiquei o mês de janeiro inteiro sem ver o Sol e quase morri (sério!). Se mesmo depois disso tudo você ainda quiser vir para cá, venha depois de abril e vá embora antes de outubro. 

05/03/2013

O dia da Go


Ai ai ai, como queria estar no Brasil no dia de hoje. Teria acordado às seis da manhã, junto com ela, só para dar parabéns, entregar o presente e ficar irritando ela até a hora dela ir trabalhar. Bom, talvez eu não acordaria nesse bom humor todo, mas pelo menos acordaria com ela.

Hoje é dia daquela gordinha, baixinha e patricinha, que me irrita desde o dia que eu nasci. Na verdade, devo admitir: ela cuida de mim desde o dia que nasci, e eu a irrito desde então. Nossa mãe diz que quando cheguei em casa pela primeira vez na vida, a Iaia ficou de mau da mãe, mas escalou o berço para cuidar de mim.

Ainda lembro nas noites de vitória no futebol, que estouravam rojão e eu acordava com medo. Corria para a cama da Larissa, e ela me acolhia, me protegia. No dia seguinte eu batia nela, bagunçava a casinha da Barbie e contava os segredos dela para a minha mãe.  E depois teve a adolescência, quando nos tornamos inimigas na maior parte do tempo.

Até que a gente cresce... E percebe que não tem nada a ver uma com a outra. Ela não sai do salto alto, eu não tiro um tênis do pé. Ela quer ser rica, eu quero ser inteligente. Ela gosta de pagode, eu gosto de rap. Ela consegue economizar dinheiro não comprando roupas, eu guardo dinheiro parcelando as roupas no cartão de crédito. Ela pensa em comprar apartamento, eu penso em viajar. A única igualdade é que queremos ser independentes, como mamãe nos ensinou.

Ê minha gorda, ainda bem que apesar de eu não ter sido uma boa irmã esses anos todos, você nunca desistiu de me amar e de me proteger. Porque hoje, com essa distância toda, é isso que percebo: que você é bem chatinha, mas prefiro você chatinha perto de mim.

É claro que quando eu voltar para casa vou continuar reclamando da sua bagunça, da sua folga, da sua mania de sentar na mesa para jantar e pedir para eu buscar tudo na geladeira, de você comprar sapatos demais, de quando você quer mandar em mim, de quando você acha que eu tenho cinco anos, de quando você quer me abraçar e eu estou de TPM, de quando você aperta meu bumbum e de quando você quer morder minha orelha. Também vou reclamar do seu pagode. Mas melhor reclamar de você todo dia, do que não ter você para me irritar o dia todo.

Minha Go, que esse seu ano de vida seja melhor que todos os outros! E saiba que quando eu chegar te entregarei um presente de aniversário bem lindo – o qual ainda não comprei, porque toda vez que vou nas lojas para ver isso compro mil coisas para mim.



Feliz aniversário, irmãzona.  

01/03/2013

O quinto mês


Tem dias que eu não sei se o tempo passa rápido ou devagar demais. Outro dia desses as meninas e eu chegávamos em Amsterdam – primeira parada antes de Dublin. A expectativa era grande, não sabíamos direito o que esperar da vida na Europa. De cara fomos surpreendidas com o frio insuportável de 15°C, mas não imaginávamos que viveríamos meses com máxima de dois graus. Parece que foi ontem, mas já tem cinco meses que desembarcamos no velho mundo.

Olhando para trás e resgatando as lembranças, passou rápido. Mas a rotina, a saudade, e até a falta do que fazer (muuuuitas vezes) fez parecer que um dia tinha 90 horas e um mês tinha mais do que o dobro de dias. Finalmente entramos no sexto e último mês – e hoje faltam exatos 27 dias para desembarcar em solo brasileiro.

A ansiedade anda matando o coração. O jeito é caçar sono para fazer o tempo correr e aproveitar o último mês de “férias”. Também vale fuçar a internet para começar a planejar a vida assim que for tempo de recomeçar – o projeto inclui desde empresas para mandar CV, pós-graduação, até viagem de réveillon.

Seis meses de férias é mais do que necessário para descansar, reativar a criatividade e a sede de ter a típica vida paulistana: sem tempo. Esse tempo também foi bom para perceber o quanto eu gosto do Brasil, apesar de tantos problemas internos. Porque apesar de tanta coisa precisar ser melhorada, nada substitui o Sol e a mania única dos brasileiros de rir de tudo (inclusive da própria desgraça).

A esperança para o último mês é que passe rápido. Que, de repente, 27 dias virem 10 e mais rápido ainda, que eu esteja a uma hora de São Paulo e do abraço dessa gente amada que sinto falta.

Por favor, senhor que controla o relógio, acelere os segundos! E, São Paulo, me receba bem, mas deixe o trânsito para outro dia – tenho pressa de chegar em casa, tomar banho demorado, comer delícias de padaria na primeira noite, e sentir o conforto da minha cama.

27/02/2013

A saudade que dá do teatro


E quando a saudade é disso aqui?


A saudade de hoje é de subir no palco com o texto na mão, tomar bronca porque não decorei minhas falas durante a semana. Ficar na coxia tirando as medidas para o novo figurino ou ajudando um amigo a decorar suas falas. Senti falta de tomar bronca por estar falando alto e rindo demais na coxia e atrapalhando o ensaio.

E depois tem aquele momento da estreia. Luz na cara, nervosismo, medo de esquecer as falas, e lágrimas que correm sem a gente querer durante a última cena da primeira apresentação.

Mas a saudade é muito maior do que só palco. Deu saudade de não querer fazer Semana da Arte, saudade até de ouvir a Clau dando bronca na gente e de repente o celular dela toca e atrapalha todo o discurso. Saudade de ficar cansada por trabalhar o sábado inteiro em um evento da CF e rir da cara do Luís, mal humorado, porque sente muita fome.

Saudade de dar aquele abraço gostoso na Veri, mas antes berrar “Amigaaaaaa”. Saudade de ver a cara de palhacinha da Lineide, de rir do Patriota porque falou mais que a boca antes da prece. Saudade até de ver o Jonnhy enrolando que está fazendo alguma coisa. Saudade de comprar o pão de mel do Lucas, e de abraçar a Fê, falar uma besteira pra ela e a gente gargalhar.

Saudade de receber o abraço aconchegante da minha mãe Eli, e de ouvir a Maria Tereza elogiando o bom trabalho da minha manicure. Saudade de ficar com ciúme do Ducho e do Du Pires por serem os queridinhos da Claudete. Saudade de observar o silêncio do Antônio e as dúvidas da Sônia. Saudade de descobrir o quanto a Jessy é divertida na confraternização de final de ano. 

Saudade da Ana Paula sempre associando a psicologia com o Evangelho. Saudade da Alê perguntando como está meu trabalho, do Tavão sempre sorrindo, e do esforço do Tavinho para não se atrapalhar quando dá o aquecimento. Saudade do Anderson associando tudo com futebol. Saudade de observar o movimento das mãos da Terena enquanto ela fala.

Uma saudade específica: do Luís sempre guardar o meu lugar e da Veri do lado dele no início da nossa reunião. E do tanto que essa mania dele querer estar perto da gente me faz rir.

Saudade daquela hora que todo mundo resolve fazer bagunça junto. Tipo na hora de organizar as cadeiras do Educandário no domingo depois de peça, ou quando a gente repete a fala dos amigos (“amo-te muito”, quem não lembra dessa em Mulheres I?).

Saudade dos nossos risos inocentes, mas sempre sorrisos sinceros. Saudade de ouvir Milton Nascimento e Flavio Venturini. Saudade de passar a semana inteira tentando resolver um problema e no sábado poder abrir o coração para esses amigos eternos, saudade de receber essa força, esses abraços, esses sorrisos.

Ah, meus amigos, meus irmãos, meus amores, me esperem com todos os abraços que não podemos dar fisicamente nesses meses. Quero chorar de emoção com vocês, e ouvir alguém fazer a piada “Lencinhos Silveira Sampaio, vamos fabricar isso e falir porque vamos precisar de muitos”.