27/02/2013

A saudade que dá do teatro


E quando a saudade é disso aqui?


A saudade de hoje é de subir no palco com o texto na mão, tomar bronca porque não decorei minhas falas durante a semana. Ficar na coxia tirando as medidas para o novo figurino ou ajudando um amigo a decorar suas falas. Senti falta de tomar bronca por estar falando alto e rindo demais na coxia e atrapalhando o ensaio.

E depois tem aquele momento da estreia. Luz na cara, nervosismo, medo de esquecer as falas, e lágrimas que correm sem a gente querer durante a última cena da primeira apresentação.

Mas a saudade é muito maior do que só palco. Deu saudade de não querer fazer Semana da Arte, saudade até de ouvir a Clau dando bronca na gente e de repente o celular dela toca e atrapalha todo o discurso. Saudade de ficar cansada por trabalhar o sábado inteiro em um evento da CF e rir da cara do Luís, mal humorado, porque sente muita fome.

Saudade de dar aquele abraço gostoso na Veri, mas antes berrar “Amigaaaaaa”. Saudade de ver a cara de palhacinha da Lineide, de rir do Patriota porque falou mais que a boca antes da prece. Saudade até de ver o Jonnhy enrolando que está fazendo alguma coisa. Saudade de comprar o pão de mel do Lucas, e de abraçar a Fê, falar uma besteira pra ela e a gente gargalhar.

Saudade de receber o abraço aconchegante da minha mãe Eli, e de ouvir a Maria Tereza elogiando o bom trabalho da minha manicure. Saudade de ficar com ciúme do Ducho e do Du Pires por serem os queridinhos da Claudete. Saudade de observar o silêncio do Antônio e as dúvidas da Sônia. Saudade de descobrir o quanto a Jessy é divertida na confraternização de final de ano. 

Saudade da Ana Paula sempre associando a psicologia com o Evangelho. Saudade da Alê perguntando como está meu trabalho, do Tavão sempre sorrindo, e do esforço do Tavinho para não se atrapalhar quando dá o aquecimento. Saudade do Anderson associando tudo com futebol. Saudade de observar o movimento das mãos da Terena enquanto ela fala.

Uma saudade específica: do Luís sempre guardar o meu lugar e da Veri do lado dele no início da nossa reunião. E do tanto que essa mania dele querer estar perto da gente me faz rir.

Saudade daquela hora que todo mundo resolve fazer bagunça junto. Tipo na hora de organizar as cadeiras do Educandário no domingo depois de peça, ou quando a gente repete a fala dos amigos (“amo-te muito”, quem não lembra dessa em Mulheres I?).

Saudade dos nossos risos inocentes, mas sempre sorrisos sinceros. Saudade de ouvir Milton Nascimento e Flavio Venturini. Saudade de passar a semana inteira tentando resolver um problema e no sábado poder abrir o coração para esses amigos eternos, saudade de receber essa força, esses abraços, esses sorrisos.

Ah, meus amigos, meus irmãos, meus amores, me esperem com todos os abraços que não podemos dar fisicamente nesses meses. Quero chorar de emoção com vocês, e ouvir alguém fazer a piada “Lencinhos Silveira Sampaio, vamos fabricar isso e falir porque vamos precisar de muitos”. 

25/02/2013

A noite, o Facebook e o trabalho


Têm noites eu a gente se senta no sofá com uma xícara de chá e rola o Facebook até onde a página pode ser carregada. Grande coisa. Pra quem está desde as 16h tarde rolando Facebook não tem nada de novo. Já dá até pra fazer as métricas do perfil alheio sem precisar de uma planilha sequer para avaliar o desempenho do dia. A atividade diária e inútil pelo menos me ensinou uma coisa sobre mídias sociais: quem posta demais, ganha Likes de menos. Isso não tem a menor importância no Facebook pessoal, mas vai que no dia que eu voltar a trabalhar isso me ajuda em alguma coisa.

Continuo sentada no sofá com a xícara de chá de hortelã, com pitadas de canela para ver se faz sumir esse resfriado que anda querendo chegar em mim. Esse texto tá tão chato quanto esses filmes cults franceses, em que a pessoa diz uma frase e acontecem 10 minutos de cena apenas com os sons ambiente. E pra ficar mais desinteressante ainda, entre uma frase e outra eu abro o Facebook pra checar se tem algo novo. Não tem, nunca tem.

Aí eu lembrei que esse texto era para falar de saudade (mais uma vez) e não da rede social do Zuckerberg – adorava quando eu escrevia sobre o Facebook no último emprego e me referia ao Facebook com esse mesmo sinônimo. Sinônimo... Palavrinha desgraçada, se não fosse a existência destes, a perfeição jornalística não seria tão exigida.

Acho que to com saudade de trabalhar. Esse texto só fala de trabalho, do último emprego, de métricas, de desempenho no Facebook, de sinônimos, de jornalismo. E fala do jornalismo que eu faço (de comunicação), e não do jornalismo valorizado pelos meus amigos da escola de inglês que acham chique e relevante ter uma jornalista na classe.

E falando nisso, comunicólogos, já to quase a um mês de voltar para casa. Se alguém souber de uma vaga de emprego manda pra mim, to precisando! Sou organizada, simpática e bonitinha. Agora até falo inglês, ó só! Tenho essa voz de criança que me tira a credibilidade, mas sei fazer cara de conteúdo e aí o jogo tá ganho: é a meiguice fantasiada de seriedade. Tem dado certo até hoje. Quer me contratar?

E agora me pergunto: é sério que alguém ainda tá lendo esse texto? Porque devo admitir que em toda a minha vida essa foi das coisas mais xexelentas que já escrevi. Nem quando escrevia sobre um assunto que prefiro não comentar, eu escrevia tão chatamente (com a licença poética que me permito) como nesse texto. Credo, com essa desgracera toda precisa nem me contratar. Ou me contrata, vai que você gosta desse meu senso crítico pelo próprio texto.

Abri o Facebook de novo. Sou escrava dessa porra – me perdoe o palavrão, mas tenha dó, é ridículo ser viciado na vida e na opinião alheia. Que relevância tem isso, gente? Eu devia de tá perdendo tempo, pelo menos, lendo o jornal desde as 16h da tarde. Ai Letícia, Letícia, você e a mania de concordar que quanto menos se faz, menos se quer fazer. Tá na hora de pôr um fim nisso... Alguém tem um emprego aí?

17/02/2013

Meus 24


Aniversário para mim sempre é motivo de muita festa. Adoro todos os dias 11 de fevereiro porque os melhores amigos me ligam, faço festa, recebo abraço, presente, compro roupa nova para ir a minha própria festa, e me sinto a pessoa mais querida do mundo.  E quem não gosta disso tudo? 

Mas esse ano foi tudo diferente. Uma ou duas semanas antes do meu aniversário fui dominada por um sentimento ruim que só me fazia querer voltar para o Brasil imediatamente. Acho que o nome disso era inferno astral.

Não queria festa. Não queria nem fazer a viagem que as meninas e eu inventamos para aproveitar o aniversário e o carnaval. Não queria saber de Dublin, nem de Bélgica, nem de nada, só pensava e desejava Brasil.

A ansiedade de voltar não passou (agora conto dias e já faltam 40), mas a angustia por não ter amigos e família do lado no dia do aniversário foi embora.

No fim das contas tive mais um aniversário inesquecível. Não recebi as ligações dos amigos brasileiros, nem ganhei aqueles abraços apertados. Mas cantaram parabéns para mim em português, inglês, em turco e em francês. Com certeza isso não se repetirá outras vezes na minha vida. Na sexta antes do dia 11 fizemos uma festinha com os amigos da escola. Tentamos ensiná-los a sambar. Como eu não sei sambar, ensinei todo mundo a dançar Na Boquinha da Garrafa (hahahaha, Letícia podre).

No próprio dia 11 peguei o avião para a Bélgica. E assim que decolamos nesse país do mesmo tamanho de Sergipe, a Vivi me acordou e disse “Olha, tá tudo branquinho!” e vi neve pela primeira vez na vida. Fiz guerrinha de neve com a Juju, boneco de neve, anjinho na neve, escrevi na neve, só faltou mesmo comer neve.


Aproveitei o dia com os maravilhosos chocolates da Bélgica, provei a cerveja do país, fiz bloco de carnaval no meio da rua e da neve em Bruxelas, ri de mim mesma. Tentei arriscar um francês e tudo que saiu foi “Bonjour”, “merci” e “toilet”.

A proximidade dos 24 foi dura. Dava pra matar a sede do sertão do nordeste com todas minhas lágrimas. Dó da minha mãe que não sabia mais o que fazer para me acalmar – até me prometeu uma festança no primeiro dia 11 que eu estiver no Brasil.

Mas enfim os 24 chegaram. Agora o ano é da decisão: ser ou não ser, eis a questão. 

16/02/2013

A vó


Hoje o dia é todo dela. Daquela velhinha dona dos olhos verdes mais lindos que já vi. Também pertence a ela o coque pequenininho durante o dia e a trança que vai ficando fininha, fininha, na hora de dormir. Dona Rosa, hoje com exatos 86 anos de vida, tem o coração mais puro que conheço.

Acordei com saudade dela. Saudade de abraçá-la, notar o quanto maior que ela eu fiquei (não sei se porque cresci demais ou porque ela encolheu) e sentir o perfume Mamãe&Bebê. Senti falta de deitar no colo dela e gritar para as minhas primas: “Olhaaaa, eu to no colo da vó, lero lero!” O colo da vó Rosa é disputado.

Me lembro de quando eu era criança e passava tardes com a vó. Ela colocava as netas para fazer arroz doce e dizia “quando o leite começar a subir vocês me chamam”, e ia para o quarto costurar. De repente, no meio de bagunça, as quatro netas berravam da cozinha:

- VÓOOO, VÓOO, O LEITE TÁ SUBINDO!!! Ô VÓOOO!

E ela vinha caminhando calma e rindo do nosso desespero com o leite. Então, separava o doce em duas ou três travessas, jogava a canela por cima, mas sempre deixava uma das travessas sem canela porque eu não gostava – e isso causa ciúme até hoje nas minhas primas. Tenho culpa se entre as quatro eu era a caçula e protegida?

Hoje também amanheci com saudade de acordar lá na roça onde ela mora atualmente. O relógio marcaria 10 horas da manhã e a casa já estaria cheirando o melhor almoço da minha vida: arroz, feijão, angu e couve. Tomaria café da manhã e em seguida já almoçaria. Como diria meu avô “Aqui a gente faz uma refeição diária, comemos o dia inteiro”.

Ê Dona Rosa, quanta coisa a senhora me ensinou. Não sei a receita do arroz doce, nem do angu. Mas com você aprendi bem como é bom e simples fazer com que as pessoas se sintam queridas. A vó sempre tinha Moranguete escondido na gaveta para me dar, e dizia para eu comer escondido porque só tinha aquele para mim (Ih, vó, revelei nosso segredo).

Se for ficar contando as coisas boas dessa vó daria um livro inteiro. Coisa boa é ter avó. Vó que deixa a gente brincar de enrugar a mão dela e que faz todos os netos se sentirem únicos (e olha que ela deve ter uns 20 netos).

E tudo que desejo para o dia de hoje é que minha vózinha sinta todo meu amor por ela, mesmo com toda essa distância. Feliz aniversário, vó! ...Porque tudo que queria dizer hoje seria:

- Bênção, vovó.
- Deus abençoe, minha filha.


01/02/2013

O quarto mês


Nenhum desafio é devidamente cumprido se não há uma pitadinha de sofrimento que seja. A gente tem mania de não amadurecer quando as coisas vêm facilmente.

Me lembro até hoje quando estudei a história do Egito. A professora me ensinou que as pirâmides foram construídas com a força do braço, porque os escravos puxavam as imensas pedras até a área onde seria construído o triângulo gigante. Depois de anos, a moradia do Faraó mumificado estava pronta. Hoje o esforço de uma crendice é conservado como patrimônio histórico e nomeado entre as Sete Maravilhas do Mundo.

Associo a minha força mental com a força física dos responsáveis pela conclusão das Pirâmides do Egito. Sei que é muita pretensão da minha parte, afinal de contas não vou (e não quero) me tornar um exemplo de vida mundial, muito menos entrarei para o ranking das mulheres mais fortes do mundo.

Minha associação parte única e exclusivamente do sentido de que só apenas com muito esforço as coisas memoráveis são conquistadas. Os escravos do Egito, muito provavelmente, não imaginavam a importância que ganharia a construção dos túmulos triangulares; assim como eu não tenho noção da importância do intercâmbio para mim mesma.

Não estou falando só do inglês que me proporcionará um salário com mais recheio na conta bancária (que assim seja, amém). O intercâmbio não é só um idioma a mais, minha gente. É mais maturidade, mais responsabilidade, mais paciência (mas não muita porque eu nasci estressada), mais diversidade cultural, mais aprendizado sobre tudo, e praticamente uma revisão dos seus conceitos.

Deu para entender quanta força é preciso para encarar isso tudo?

O intercâmbio (apesar de ter sido minha própria escolha) é a hora que Deus – ou quem quer que desenhe o seu destino – te coloca sozinho no mundo e diz: agora olha para você mesmo, se refaça e viva. Cê tá sozinho, sem Sol, com frio e com dias infinitamente cinzas. A solução é esperar o tempo passar, encarar, crescer, virar gente grande, e depois olhar para trás e perceber o quanto você mesmo mudou.

E então, com quatro meses concluídos, eu percebo que mais uma pedrinha da minha pirâmide já foi arrastada para perto da área onde ela será construída. Faltam só mais duas pedras para o pedaço da pirâmide equivalente a experiência fora de casa ser cumprido. Falta só uma vida inteira para a conclusão da pirâmide toda.