28/03/2013

O sexto mês – o fim


Eu fui uma criança chata. Quando tinha lá meus cinco, seis anos de idade, não ficava com ninguém, só queria saber da mãe. Meus primos mais velhos contam isso rindo da minha chatice e minha mãe sempre diz que eu era mesmo irritante. Com o tempo, mudei. A escola e o escotismo me ensinaram a ser sociável e a viver mais desgrudada da mãe e do pai.

Apesar disso e de tanta vida, ainda aos vinte e poucos anos continuei seguindo a mãe pela casa, pedindo para ela deitar comigo na cama e cuidar de mim como se eu fosse aquela criança chata. E mesmo sabendo desse meu grude todo, quis dar meu grito de independência. Fui para a Irlanda.

Não lembro a primeira vez que chorei de saudade da família, mas me lembro muito bem da dor que o meu coração sentiu durante seis meses. A dor me fez querer voltar imediatamente – várias vezes. Mas não achava justo abrir mão do meu próprio sonho para, simplesmente, aliviar meu coração. Persisti, respirei fundo, confiei, tive fé e completei seis meses.

É claro que sozinha não teria conseguido. A família se manteve presente, quase consegui seguir a mãe pela casa via Skype. Os amigos continuaram me carregando no colo através das conversas do chat do Facebook. E claro, as maravilhosas companheiras de viagem e as novas flatmates foram fundamentais para dar colo e para distrair a cabeça com piadas bobas, que me fizeram chorar de rir.

Tanta saudade e a batalha para não desistir no meio do caminho me fizeram dar valor as coisas simples. Dias de Sol me aliviam, gente sorrindo sem motivo me alegra, um abraço sincero é tranquilizante, vestir só uma calça e uma meia é perfeito. E o principal de tudo: admitir para mim mesma que não sei viver longe daquela mulher baixinha que me colocou no mundo, e daquele homem de bigode que me ensinou a ser destemida.

Seis meses longe de casa me ensinaram muito sobre viver, me fizeram uma pessoa nova, melhor, mais forte e madura. E mesmo nessa escola de ensino intensivo para ser gente grande, continuo sendo aquela criança chata que não larga do colo da mãe. Afinal de contas, é como dizem: temos que ficar sem as coisas para dar valor a elas. E é por isso que hoje volto ao Brasil, com a cabeça feliz pela conquista e o coração sereno pelo colo que irá receber.

Mãe, Pai, Gorda, Juju, Vivi, Tia Marta, Tia Riva, Tio Vanderlei, Tio Beque, Rafa, Má, Lara, Val, Bruno, Marcelle, Jean, Loira, Luís, MUITO obrigada, pelo apoio, pela força, e por acreditarem em mim.

24/03/2013

As flatmates




Em uma gelada noite de janeiro elas vieram conhecer o apartamento. Precisávamos urgentemente de duas pessoas para viver aqui e (verdade seja dita) para dividir o aluguel. Recebi as duas com a mesma simpatia de um corretor de imóveis. Na urgência de uma nova dupla omiti a rapidez que a água quente do chuveiro acaba e qualidade vagabunda da Internet.

Poucos minutos depois da visita (o tempo exato de sentar na cama para contar o que achei das meninas para a Vi e para a Giu), recebi uma in box dizendo “Oi Letícia, vamos ficar com o apartamento. Amanhã voltamos para definir os detalhes”. Se eu não tivesse gostado delas à primeira vista, eu não teria tido nem tempo de arrumar uma desculpinha esfarrapada para encontrar outros moradores.

Mal sabia eu que a pressa delas por um novo lar era mais urgente do que a minha busca por novos flatmates (o nome dado para a pessoa que divide o apê com você).

Então em fevereiro começamos a morar juntas. Cinco mulheres: quatro de São Paulo e uma da Bahia. Logo, imagine a quantidade de vezes que a conterrânea de Caetano Veloso não brigou com a gente quando perguntávamos: Essa roupa tá muito baiana? A gente tentava não rir pra ver se a piada passava despercebida, mas ela sempre notava e brigava com a gente. Eu disse pra ela: Val, quando algo estiver brega, você tem que dizer “Tô muito paulista?”.

A quarta elementa de SP faz uma comida tão cheirosa quanto a da nossa mãe. Eu disse várias vezes “É a Lara chegar na cozinha e eu ficar com fome”. Não descobri até agora o que é que ela coloca na comida, mas cheira muitíssimo bem. Sem contar os petisquinhos preparados por ela e pela Vi nas (muitas) noites de sexta ou sábado que resolvíamos ficar em casa.

E normalmente, a noite era o período da família feliz. Sempre me programava para estudar antes das 18h porque sabia que as meninas chegariam por esse horário, e a partir daí era só conversa e risada. A Doriana poderia estar na nossa mesa porque esses momentos eram (ainda são) um típico comercial de margarina.

Tanta boa convivência só poderia resultar em uma coisa: planos para quando todas estiverem no Brasil. Agora queremos passar réveillon em Morro de São Paulo, carnaval em Salvador, final de semana em Boracéia na casa da Sandrão, vamos fazer churrasco em Mogi das Cruzes, gastar dias de descanso em São Luiz do Paraitinga, comer macarronada na casa da Giu e hambúrguer do Dal lá em casa.

Por fim, nenhuma de nós imaginou que na urgência de novas flatmates e na pressa da in box do “Oi Letícia, vamos ficar com a vaga” iria resultar em uma amizade tão boa e cheia de sorrisos simples e sinceros. O que fica hoje (ou melhor, a partir do dia 28) é só saudade.

23/03/2013

O Big Brother Dublin


Faltaram câmeras atentas para gravar o nosso dia a dia e as gafes frequentes das moradoras do Flat 2. Se morar aqui fosse mesmo um BBD a audiência seria alta. Teve briga, festa, muita risada, grupos unidos falando mal dos outros moradores e novos integrantes no meio do programa.

Prefiro deixar a parte ruim de lado e lembrar das risadas. Quantas vezes nos reunimos na sala/cozinha, choramos de rir e falamos: “Caraca, tinha que ter uma câmera ali pra filmar isso”. Ou então, depois do almoço, os papos filosóficos sobre a vida, a vivência na Irlanda e a ansiedade da nova vida no Brasil. Ê Bial, você tinha que ter gravado isso tudo.

O editor do programa poderia fazer um especial sobre a quantidade de meias que foram furadas no ferrinho que separa o meio metro da cozinha do resto da sala. Era ir colocar a panela no fogo e expressar, “Ai caralho!” e checar que a meia tinha sido mesmo furada. Também dava para fazer um especial sobre ‘Dias de Pijama’. No carnaval fizemos “Bloco do Pijama” e não saímos do sofá.

A prova do líder era sempre prova de resistência: o banho. O banho dura cinco minutos e meio com água quente, e se você ainda quer lavar ‘as parte’ em mais tempo do que isso, divirta-se com água gelada. O vencedor deveria ser aquele que tomou banho só com água quente. Nunca ninguém ganhou.

A nossa clausura era praticamente a mesma do reality show. O frio nos obrigou a passar dias em casa (de pijama, claro). Saímos apenas para ir ao mercado e às aulas, era suficiente para não querer passar nem mais um segundo na rua. E o fato de ver a família apenas pela telinha do computador é a mesma coisa que a noite de paredão. 

Não tivemos um Bial, tivemos um Gerard (leia-se Gerrá). Mas o nosso Bial nunca veio com palavras bonitas ou festas temáticas. O nosso Bial, na verdade, estava mais para Seu Barriga. Ele vinha todo mês, um dia tomou café brasileiro e outro dia comeu um beijinho típico das festas de aniversário. Uma vez nos deu panelas novas, e outro dia nos deu um litro de cloro, e todos os meses teve paciência de ouvir o nosso inglês e dizer “vocês estão mais confiantes para falar”.

Não tivemos câmeras, mas tivemos post no EU QUERO QUE VOCÊ LEIA. Mais que isso só a memória para contar história. Agora já estamos na semana final do BBD, eu só espero ansiosa pelo discurso de eliminação do Bial (Bial Dal’Jovem, que foi quem sobrou para digitar histórias).

18/03/2013

St. Patrick's Day


Mais um domingo na Irlanda, mas dessa vez um domingo diferente: o penúltimo por aqui e dia da festa mais conhecida do País. O dia amanheceu típico: frio e com chuva – chove o ano inteiro por aqui (se deixar, o tempo todo). Deu preguiça de sair da cama, mas a festa começava cedo, não dava para enrolar muito. Carnaval que começa cedo? Isso não faz sentido.

Eram seis mulheres para tomar banho, trocar de roupa, passar maquiagem e vestir a camisa do St Patrick’s Day. A arrumação foi demorada, não muito conturbada e bem divertida. Me vesti de bandeira: meia calça laranja, camiseta branca e suéter verde. (Na verdade não sei se saí de Irlanda ou de cantina italiana, porque suspeito que minha meia era de um tom vermelho-alaranjado, e não laranja como desejado).

Não bastasse a casa das seis mulheres, no caminho ainda acrescentamos na “caravana do Flat 2” mais duas amigas e os três futuros moradores desse apê que ainda me abriga. A festa estava feita! Não precisaria nem de St Patricks para a gente se divertir.

Na rua o desfile já acontecia. Tinha bailarina, carro alegórico e banda – mas quase não dava para ouvir a música e ver o desfile. Tem gente que leva escada para conseguir ver a coisa das alturas. A galera daqui fica atrás da grade só vendo a banda passar, muito comportado. Os brasileiros e os festeiros de plantão vão descendo a avenida, acompanhando o desfile, e fazendo mais barulho que a banda. Eu cantei as marchinhas do carnaval de São Luiz do Paraitinga para animar a festa.

O desfile é uma coisa legal, mas que acontece na velocidade da luz. No mesmo instante do término, o pessoal que teve que trabalhar na data começa a tirar as grades da rua e o povo todo segue para o Temple Bar. Na avenida a festa continua, mas promovida pelos bagunceiros...

Daí é nessa hora que você anima tanto o dia do Santo que o turista quer tirar uma foto com você, sem imaginar que você não vê a hora de voltar para a pátria amada. O momento também é de ensinar as irlandesas a falarem “nós somos piriguetes” (acesse o link), de se unir a outros brasileiros para fazer festa, e dizer para o turista qualquer palavra ou frase que você saiba na língua dele.

Em um segundo que você para de fazer bagunça, você nota que seu pé está molhado e congelado, sua mão está dura de frio, seu nariz está morto, e que sua dor no dente do siso passou porque o frio está doendo mais. E é assim que o frio acaba com a sua festa e você volta para casa no passo mais apertado possível, na pressa de se aquecer.


Por fim, devo admitir que o Saint Patrick’s Day valeu pelos seis meses. E que esse é o único e bom motivo para você vir para cá (já que dei cinco motivos para não vir para cá, agora te dou um só para você vir).

10/03/2013

5 motivos para NÃO vir para Dublin


Vamos falar de Dublin enquanto há tempo. Agora não tem mais novidade, é o tempo de fazer retrospectiva, análise, recomendação e conclusão. E vou começar pelo lado pessimista da coisa.

Morar na Europa é atraente e chique. Para quem quer aprender inglês, a Irlanda é um dos países (aparentemente) mais adequados para isso, já que o visto é fácil, é possível trabalhar e estudar e ainda tem a vantagem de poder viajar pelo continente (que é a parte boa daqui). Mas, é como dizem: na prática, a teoria é outra. E a Irlanda não é assim tudo aquilo que eu sonhava para a minha vida europeia.

1. O inglês dos irlandeses é ruim: quando eu cheguei na Europa desci primeiro na Holanda. Já tinha uns dois ou três anos que eu tinha parado de estudar inglês, e ainda assim consegui entender muito do pouco que me falaram. Mas, foi chegar em Dublin e não entender nem o número do ônibus que o senhor me indicou para chegar na minha casa. Hoje entendo o inglês dos ingleses, dos franceses, dos árabes... Mas ainda faço cara de queijo quando escuto o inglês dos irlandeses.

2. Tudo fecha cedo, menos o Tesco: para você que, assim como eu, é movido e apaixonado pelo ritmo 24horas de São Paulo, não recomendo nadinha vir para Dublin. Se tem uma coisa que eu amo, é enrolar o dia todo e, de repente, a noite ir dar uma voltinha no shopping. Aqui não dá para fazer isso porque o expediente das lojas encerra às 18 horas. A única coisa que fica aberta até mais tarde é o supermercado, o Tesco. Que graça tem ir passear no supermercado onde nada é gostoso?

3. A comida não é boa: meu conhecimento sobre agricultura é quase nulo, mas sei que no frio nada cresce e que o solo úmido demais também não é bom para as plantinhas. Praticamente tudo vem de outros países e as coisas duram super pouco, porque devem tacar muitos aditivos químicos para fazer a coisa durar. Outra coisa: a carne é cara, é feia, e é de cavalo. O frango é caro, mas quebra um galho. O peixe também é industrializado – e eu que achava que aqui teria muito peixe porque aqui é uma ilha. Pelo menos, o chocolate é bom e barato.

4. Viver custa caro: todo brasileiro chega na Irlanda achando que vai viver em Euro pagando pouco. Mentira. Dos países que visitei, pude observar que a vida por aqui é das mais caras. Até a lojinha de souvenir daqui tem a cara de pau de ser a mais cara entre os países que visitei. A compra do mercado é um roubo! Enquanto um vinho sem marca custa seis Euros por aqui, na Espanha ele custa dois Euros.  A passagem de avião também é mais cara porque precisamos de mais combustível para voar da ilha até o continente.

5. É frio o ano inteiro: todo mundo sabe que minha vivência por aqui foi toda invernal, mas conheci brasileiros que moram aqui há mais de um ano e me afirmaram que aqui é frio o ano inteiro. O dia mais quente do ano faz 20 graus – o que faz os irlandeses passarem mal. Especialmente no inverno, o Sol é uma raridade, e isso torna a vida deprimente. Fiquei o mês de janeiro inteiro sem ver o Sol e quase morri (sério!). Se mesmo depois disso tudo você ainda quiser vir para cá, venha depois de abril e vá embora antes de outubro. 

05/03/2013

O dia da Go


Ai ai ai, como queria estar no Brasil no dia de hoje. Teria acordado às seis da manhã, junto com ela, só para dar parabéns, entregar o presente e ficar irritando ela até a hora dela ir trabalhar. Bom, talvez eu não acordaria nesse bom humor todo, mas pelo menos acordaria com ela.

Hoje é dia daquela gordinha, baixinha e patricinha, que me irrita desde o dia que eu nasci. Na verdade, devo admitir: ela cuida de mim desde o dia que nasci, e eu a irrito desde então. Nossa mãe diz que quando cheguei em casa pela primeira vez na vida, a Iaia ficou de mau da mãe, mas escalou o berço para cuidar de mim.

Ainda lembro nas noites de vitória no futebol, que estouravam rojão e eu acordava com medo. Corria para a cama da Larissa, e ela me acolhia, me protegia. No dia seguinte eu batia nela, bagunçava a casinha da Barbie e contava os segredos dela para a minha mãe.  E depois teve a adolescência, quando nos tornamos inimigas na maior parte do tempo.

Até que a gente cresce... E percebe que não tem nada a ver uma com a outra. Ela não sai do salto alto, eu não tiro um tênis do pé. Ela quer ser rica, eu quero ser inteligente. Ela gosta de pagode, eu gosto de rap. Ela consegue economizar dinheiro não comprando roupas, eu guardo dinheiro parcelando as roupas no cartão de crédito. Ela pensa em comprar apartamento, eu penso em viajar. A única igualdade é que queremos ser independentes, como mamãe nos ensinou.

Ê minha gorda, ainda bem que apesar de eu não ter sido uma boa irmã esses anos todos, você nunca desistiu de me amar e de me proteger. Porque hoje, com essa distância toda, é isso que percebo: que você é bem chatinha, mas prefiro você chatinha perto de mim.

É claro que quando eu voltar para casa vou continuar reclamando da sua bagunça, da sua folga, da sua mania de sentar na mesa para jantar e pedir para eu buscar tudo na geladeira, de você comprar sapatos demais, de quando você quer mandar em mim, de quando você acha que eu tenho cinco anos, de quando você quer me abraçar e eu estou de TPM, de quando você aperta meu bumbum e de quando você quer morder minha orelha. Também vou reclamar do seu pagode. Mas melhor reclamar de você todo dia, do que não ter você para me irritar o dia todo.

Minha Go, que esse seu ano de vida seja melhor que todos os outros! E saiba que quando eu chegar te entregarei um presente de aniversário bem lindo – o qual ainda não comprei, porque toda vez que vou nas lojas para ver isso compro mil coisas para mim.



Feliz aniversário, irmãzona.  

01/03/2013

O quinto mês


Tem dias que eu não sei se o tempo passa rápido ou devagar demais. Outro dia desses as meninas e eu chegávamos em Amsterdam – primeira parada antes de Dublin. A expectativa era grande, não sabíamos direito o que esperar da vida na Europa. De cara fomos surpreendidas com o frio insuportável de 15°C, mas não imaginávamos que viveríamos meses com máxima de dois graus. Parece que foi ontem, mas já tem cinco meses que desembarcamos no velho mundo.

Olhando para trás e resgatando as lembranças, passou rápido. Mas a rotina, a saudade, e até a falta do que fazer (muuuuitas vezes) fez parecer que um dia tinha 90 horas e um mês tinha mais do que o dobro de dias. Finalmente entramos no sexto e último mês – e hoje faltam exatos 27 dias para desembarcar em solo brasileiro.

A ansiedade anda matando o coração. O jeito é caçar sono para fazer o tempo correr e aproveitar o último mês de “férias”. Também vale fuçar a internet para começar a planejar a vida assim que for tempo de recomeçar – o projeto inclui desde empresas para mandar CV, pós-graduação, até viagem de réveillon.

Seis meses de férias é mais do que necessário para descansar, reativar a criatividade e a sede de ter a típica vida paulistana: sem tempo. Esse tempo também foi bom para perceber o quanto eu gosto do Brasil, apesar de tantos problemas internos. Porque apesar de tanta coisa precisar ser melhorada, nada substitui o Sol e a mania única dos brasileiros de rir de tudo (inclusive da própria desgraça).

A esperança para o último mês é que passe rápido. Que, de repente, 27 dias virem 10 e mais rápido ainda, que eu esteja a uma hora de São Paulo e do abraço dessa gente amada que sinto falta.

Por favor, senhor que controla o relógio, acelere os segundos! E, São Paulo, me receba bem, mas deixe o trânsito para outro dia – tenho pressa de chegar em casa, tomar banho demorado, comer delícias de padaria na primeira noite, e sentir o conforto da minha cama.