23/04/2013

A chegada


Em poucos dias completarei um mês de volta a casa e quero registrar um momento único e muito esperado durante os seis meses de distância.

Era quinta-feira, véspera de feriado em todos os países comandados pelo catolicismo. O dia seguinte seria sexta-feira Santa, e o caos no trânsito já era previsto em São Paulo na data da chegada.

Acordei cedo, quatro horas da manhã, na verdade mal dormi. A ansiedade já estava a todo vapor. Nevava. Pela última vez vestiria o casaco da Adidas que me protegia do intenso frio irlandês. Abracei forte as duas flatmates que me fizeram sorrir tantas vezes, e mais forte ainda as duas amigas que se tornaram irmãs. O taxista brasileiro me buscou em casa, me ajudou com os sessenta e muitos quilos de mala e me deixou no aeroporto por menos de vinte Euros.

Fiz o check-in e minhas malas receberam uma etiqueta vermelha indicando “heavy”, mas pelo menos não ultrapassaram o peso permitido. Horas depois de esperar fazendo nada, entrei no primeiro avião. Estava ansiosa, não via a hora de chegar, e eu ainda tinha 15 horas pela frente.

Em Dublin, o avião precisou tomar um banho com um líquido especial para tirar toda a neve que o cobria. A chuveirada do aviãozinho acabou atrasando um pouco, o que me fez morrer de medo de perder a conexão em Amsterdã. A espera para decolar foi longa, aproveitei para chorar as saudades que sentiria de tudo, apesar de tanto frio e tanta falta da família.

Dormi e finalmente cheguei na terra dos cigarrinhos que fazem ver duendes. Caminhei com o passo mais apertado possível, pois em menos de 30 minutos sairia o voo para o Brasil. Corri, mas ainda deu tempo de parar e comprar uma vaquinha holandesa para a coleção da minha mãe. Ofegante cheguei até o portão que me levaria onde desejava estar.

Tanta pressa para ficar dentro do avião por 12 horas. Dorme. Acorda. Come. Assiste filme. Dorme. Come. Escova os dentes. Assiste filme. Ouve música. Abre a janelinha, fica cega com o Sol claro. Dorme. Acorda. Come. Vai ao banheiro, escova os dentes, toma água, e finalmente duas horas para chegar em SP. Já estava suando frio de ansiedade.

Dormi de novo para ver se o tempo passava. Vinte minutos antes de pousar quase fiz xixi na calça de tanta ansiedade e vontade de chegar logo. Até que vi aquela quantidade infinita de prédio que (acredito) só São Paulo seja capaz de suportar. Finalmente estava em casa, faltava só pegar as malas e correr para o abraço.

A pressa era grande. Mas a fila para sair do aeroporto, depois a fila para passar pela Polícia Federal, e ainda a espera para pegar as malas fizeram com que a ansiedade aumentasse mais. Ficava pensando como a minha mãe estaria me esperando na saída do desembarque, qual seria a reação do meu pai para disfarçar a ansiedade, e me perguntava se a irmã e o namorado também iriam. O coração batia tão forte que parecia que ia parar de repente.

Enfim, mais de sessenta quilos no carrinho e eu, magrela, sem força e cansada do voo, empurrando mais peso do que eu tenho, sozinha. Fui o mais rápido que pude, a ansiedade me comia por dentro, transpirava frio e o choro de emoção já estava engatilhado na garganta.

Assim que sai me deparei com famílias abraçando os recém-chegados.  Olhei para um lado, olhei para o outro e não vi ninguém conhecido.  Pensei “meu pai eu vou achar”, olhei de novo e nada. O sorriso se desfez e o choro desistiu de sair. Nenhum Dal'Jovem estava lá. Comecei a rir sozinha e pensei “Ê família Buscapé!”

Ainda bem que ligação a cobrar a gente não esquece como faz:

...Após o sinal diga o seu nome e a cidade de onde está falando...

- Alô, mãe? Onde você tá?

- Lê? A gente tá estacionando o carro.

- Ah, tá.. Eu to aqui, já cheguei.

- Tá, a gente te acha.

Ainda deu tempo de ir para fora do aeroporto tomar um vento, porque eu morria de calor com 20 graus. Tirei o tênis porque o pé tava quase derretendo e sentei em cima das malas. Então, ouvi um “oi Lê”, e era aquele cotoco de gente de cabelos de índia, que as vezes eu chamo de mãe.

A ansiedade já tinha passado. Já tinha dado muita risada por não ter ninguém a minha espera. O nervoso da chegada se transformou em alegria e bagunça: pulei no colo de todo mundo. Enquanto abraçava a mãe também pulava. Montei no colo da irmã, do pai e do namorado. E continuei pulando pelo aeroporto, e a mãe dizia:  “Para Letícia, tá todo mundo olhando”, e ela ria e chorava ao mesmo tempo.

Essa é a graça de ser Dal’Jovem: fugir do comum; ter uma família que não te espera no aeroporto seis meses depois de distância. (Mas a culpa foi minha de ter escolhido voltar bem na véspera de feriado, e ter feito os quatro amores enfrentarem mais de três horas de trânsito na Marginal).

17/04/2013

Eu voltei, eles voltaram


Já estou mais acostumada com essa coisa do “voltar”. Têm três semanas que conto para quem encontro as mesmas coisas: os dias gelados e cinzas, que clareava às 8h30 e escurecia às 16h, que toda comida era industrializada, que perdi uns sete quilos, que fiz uma amiga coreana, outra da Arábia Saudita e sinto falta de rir com meu amigo turco. 

- É diferente, né?

- Ah, é! A gente aprende muito com a boa educação que eles têm. Comecei a dar um valor imenso para as coisas que eu posso fazer no Brasil, descobrindo o tudo que minha amiga muçulmana não pode fazer; foi incrível o dia que entrei no banheiro da escola e a vi sem o véu, porque estava ajeitando o cabelo.

E tinham os coreanos e japoneses também, que me ensinaram muito sobre ser educada. Eles agradecem a tudo e muitas vezes. Você faz um elogio sobre o bom desempenho no inglês, ou que o cachecol é bonito, ou se leva um brigadeiro para eles provarem, eles te agradecem mil vezes, e abaixam a cabeça com as mãos unidas, daquele jeitinho típico da Coreia.  

Gosto também de contar sobre os franceses, que são todos arrogantes. São legais, gente boa, mas metidos. Os franceses vão achar que o mundo gira em torno da França eternamente. Ai de quem corrigisse o inglês de uma francesa que conheci – e tinha a cara de pau de dizer que a pronuncia brasileira que era ruim, enquanto ela dizia “flauê” (para flower) e “alrrêdí” (para already).

Conheci os turcos, que podiam ser brasileiros, pela simpatia e pelo bom gosto de ensinar algumas coisas no idioma deles e também por quererem aprender o português. Um deles, todo dia me olhava e dizia “obrigado”. Esse mesmo turco me provou que não dá pra negociar com gente dessa espécie: queria levar três bicicletas por 50 Euros, no duro.

Com tudo isso, fiquei pensando: o que foi que essa gente contou para a família e amigos sobre as três brasileiras quando chegaram na terra natal? Acredito que os franceses vão contar do tanto que nós sorrimos de tudo e o tempo todo – mesmo com aquele frio do cacete. Os asiáticos vão bem dizer sobre nossa falta de vergonha: falamos inglês, errado, mas falamos – o que eles não fazem, porque falam certo, mas não falam.

E o que será que ficou? Fico curiosa... 

03/04/2013

A volta


Que calor é esse que faz nessa terra? Amanhã completa uma semana que voltei para casa, e de tudo, ainda desacredito no calor. Na quinta-feira, quando cheguei, tomei banho, lavei o cabelo, vesti short e regata, enquanto minha mãe e minha irmã vestiam calça e moletom fininho. As duas diziam “Letícia, veste uma roupa que está frio!”. Frio? Frio estava na quinta cedo quando eu deixei Dublin nevando, em um frio de -5.

Eu desacredito no calor e quem já veio me dar um abraço de matar as saudades desacredita na minha brancura. Que eu sempre fui bem branquinha todo mundo sabe, mas a diferença é que eu estou mais branca do que brasileiro que não aproveitou o verão. Se eu tomar remédio na veia, dá pra ver o líquido subir – é sério.

Agora entendo porque os gringos quase morrem quando visitam o Brasil. Essa terra é perfeita. É quente, é clara, tem Sol e tem gente feliz. Mas para quem sobrevive ao inverno europeu, o Brasil é demais (demais de bom).

Além do calor, estou me adaptando à quantidade de carro que têm em São Paulo. COMO É QUE A GENTE NÃO MORRE COM ESSE TRÂNSITO? Cada ônibus, moto, caminhão ou um motorista sem noção que passava perto de mim aumentava meu batimento cardíaco. Reclamei seis meses da monotonia de Dublin, mas SP também não precisava chegar esfregando essa loucura na minha cara. Deu medinho sair na rua.

Fora as mudanças do estilo de vida, forçados pelo tempo e pela cidade, tem a rotina de casa. Estava acostumada a fazer as coisas quando eu queria, quando precisava, e não quando a mãe mandava. Morri de saudade do meu Cidão, mas agora não sei como reagir quando ela diz “Letícia, você comeu pouco”, “Letícia, troca de roupa”, “Letícia, você tem que comer bem, está pálida”, “Letícia, você não vai tomar banho?”, “Lê, rega as plantas para mim”... Mãe é uma coisa de doido, que não dá para ficar sem.

De bermuda, camiseta e ventilador ligado, segue a readaptação à velha vida.