20/08/2013

24h de lentes de contato

Pela primeira vez, em 17 anos, soube o que é enxergar bem sem nada apoiado no meu nariz. Me senti uma pessoa nova. 

Na tarde de ontem saí do oftalmologista feliz e impressionada com a mágica que as lentes de contato causam em um serzinho com astigmatismo forte e leve miopia. Observei tudo o que estava longe com muita atenção, inclusive eu mesma. Foi a primeira vez que pude observar, de longe, o tamanho pequeno dos meus olhos – iguaizinhos aos do meu avô.

O Sol estava alto, fiz questão de colocar os óculos de sol para ter o prazer de enxergar a vida e a claridade ao mesmo tempo. Antes sempre enxergava ou a vida ou a claridade, em situações extremas usava dois óculos. Tive o prazer de não precisar me preocupar em trocar de óculos para enxergar o nome do ônibus.

De longe vi um ônibus amarelo e pensei “aquilo é um ônibus amarelo! Não é uma mancha amarela que cruza a avenida”. Sorri sozinha. Quis ler todas as placas que estavam longe: Marginal Pinheiros, Metrô Faria Lima, Avenida Pedroso de Moraes. Me fez lembrar quando eu era criança e estava aprendendo a ler, pedia para o pai dirigir devagar para dar tempo de ler na estrada: RANNNN-CHOOO DA PAAA-MOOO-NHAAA!

O mundo ficou mais bonito. Na Teodoro Sampaio, a obra interminável, pela primeira vez, não me incomodou. Achei bonito enxergar de perto e de longe a mistura da poeira com o uniforme dos operários, meio sujo, meio azul, junto com a cor não identificada do trator (o daltonismo segue sem cura).

Enquanto caminhava até o ponto de ônibus me senti naquela cena do filme “O fabuloso destino de Amelie Poulain”, em que ela pega no braço de um cego na rua e o leva até a porta do metrô, enquanto descreve tudo com agilidade e riqueza de detalhes. Essa era eu comigo mesma nas primeiras sensações com as lentes de contato.

O dia seguiu. E todas as vezes que me via em algum reflexo achava estranho, faltava alguma coisa no meio do rosto. Minha irmã, que passou nossa infância inteira me chamando de quatro olhos, ontem a noite ficou me chamando de “estraínha”. – Tá estranho, Lê, é esquisito ver você sem óculos.

Quando tirei as lentes pela primeira vez, a reação imediata foi “Gente! Eu enxergo mal demais!” Mal via o olho direito. Foi o fim do feitiço. O mundo ficou destorcido de novo. Sorri feliz quando me reencontrei com o bom e velho óculos de grau, e me senti a Letícia de sempre.


Feliz de quem sabe apreciar a beleza das novas experiências.

12/08/2013

Pareço com ela

- Mãe, sabe se o pai gostou do tênis?
- Ah, deve ter gostado, Lelê. Ele saiu usando ontem... Seu pai é igual você, não vê a hora de usar as coisas que ganha.

Ela sempre arruma alguma coisinha para dizer que sou igualzinha ao meu pai. A ansiedade de desfilar com o presente, a impaciência com lugares excessivamente cheios, o desgosto de conversar no telefone, a preguiça de passear no shopping, comprar sem olhar o preço e, claro, o daltonismo. “Você é igualzinha ao seu pai”, ela sempre diz isso, mas esquece de observar o tanto que pareço com ela.

Me lembro da adolescência, quando comecei a fazer o que queria e errar com mais frequência, que a gente brigava todo mês ou o mês inteiro. Eram dias sem se falar. Na época eu pensava: “Nada a ver, nada a ver! Não me pareço nada com ela, é por isso que brigamos tanto”. Hoje compreendo diferente.

Ficamos irritadas quando o atraso dos outros atrapalha a nossa rotina. Dá nervoso de gente sem atitude. Falamos pela pessoa quando alguém fala muito devagar ou quando contam situações com muitos detalhes (desnecessários). Falamos “bem feito” quando alguém se dá mal em alguma coisa que já tínhamos avisado que não ia dar certo. Somos bravas. Somos excessivamente transparentes. Não sabemos disfarçar quando não gostamos de alguma coisa ou de alguém. Cansamos se ficamos entediadas – mas um dia frio, cheio de preguiça, sempre cai bem. Não precisamos de álcool e drogas para fazer o ridículo: felicidade basta, e resulta em lutinha na cozinha. Disputamos quem consegue manter a perna na altura maior. Ela pede pra eu pegar as xícaras, porque sou alta, eu peço para o namorado, porque ele é maior. Detestamos academia, preferimos Pilates e exercícios na água. Ela reclama dos fios brancos, eu reclamo dos fios armados. Não passamos tanta maquiagem. Saímos do banho e, obrigatoriamente, passamos no rosto creme hidratante de noite e protetor solar de manhã.  Gostamos dos mesmos perfumes. Preferimos sapatos baixos. Gostamos de andar no mato. Meus olhos ficam como os dela quando sorrio. Aprendemos rápido tudo o que não presta: gíria, música ruim, piada maliciosa. Nos admiramos com a voz da Nana Caymmi e sempre saímos do show comentando do tanto que ela é arrogante – “mas canta bem, isso não dá pra negar”, comentamos. Reclamamos do tanto que é duro ser mulher quando temos que fazer a sobrancelha. Sentimos MUITO frio no pé. Temos dor na coluna e sinusite. Sempre falamos que na outra vida nos perdemos na boemia. Aprendi a gostar de Botero, Picasso, Miró e tantos outros com a mãe.

Quando morei em Dublin percebi que sou gêmea dela. Lavava a louça, secava e guardava – igualzinho ela faz em casa. Quando me dei conta que fazia isso foi que percebi que sou realmente filha da minha mãe.

A gente herda os hábitos.