17/08/2015

a vida e o celular

A vida segue com pressa antes das nove horas da manhã na transferência da linha amarela pra linha verde do metrô. E no ritmo da procissão, metade dos passageiros estão com celular na mão. Que lerdeza que é! 

Eu tenho pressa. Sempre. Ando mais rápido do que corro. E o povo todo com celular na mão. Jogando Candy Crush, respondendo o amigo, avisando o chefe que vai atrasar - mas tá na maior lerdeza com o celular na mão. Será que só eu tenho pressa nessa cidade? Anda, cacete! 

Puta vida! Bom humor logo cedo já não é tarefa fácil, ainda me vem essa gente de passo lento e celular na mão. Aaaaaaannndaaaaaaaa! Puta merda, que lerdeza, gente! Sai! Sai! Sai! Eu vou berrar... Ufa! Escapei da lerda, outro lerdo a esquerda, viro a direita, e como entre obstáculos chego na escada. Alguém para do lado esquerdo, que era pra estar livre. Tô atrasada, e o cidadão parado do lado errado também tá com o celular na mão. Não percebeu o apressado logo atrás. 

Que desrespeito que é! 

Logo depois tem reunião. Nada muito relevante. Mas tem que estar lá, de corpo e alma presente. Celular toca, reunião interrompida. Todos reunidos aproveitam pra responder WhatsApp. Piada, cliente, mãe, piada, piada, piada, grupo da pós, piada... Depois tem aquela perguntinha: onde estávamos mesmo? E o celular toca de novo! 

Mais tarde tem encontro com amigos que não se vê há tempos. Conta uma coisa aqui, outra ali, que saudade que eu tava de você! E pega o celular na mão, põe a senha e responde outro WhatsApp, "to aqui com as meninas. Chego mais tarde". O papo em dia segue: 

- você viu aquele vídeo? Vou te mandar no WhatsApp...
- Nossa... Você não sabe o que o que ele falou pra Lu, olha o print...

Se faz check-in, tira foto pra postar no Instagram e beijo, tchau, te mando whats. 

Não se liga mais! 

Próximos aplicativos a serem lançados: happy hour online, mesa de bar virtual, almoço de domingo exclusivo para iPhone. 

E eu, que trabalho a favor do universo digital, me pergunto: até onde tá valendo a pena essa tecnologia toda? É filosofia de Facebook, ou "vida é o que acontece enquanto você olha o celular" ou exige uma adaptação para "vida é o que acontece dentro do celular"? 

No fim do dia, de volta pro trenzão, sentido Grajaú. Escuto um barulhinho irritante:

Moço... Ô moço... Da pra tirar o barulhinho do jogo do celular? É só por no mute! Todo celular tem essa opção, é igual televisão. 



quem não passou por qualquer dessas situações até aqui,  que atire a primeira pedra. 

27/03/2015

Eu não anoto mais na mão

Estava na aula de comportamento do consumido digital na pós e lembrei que estava devendo enviar um email a uma amiga. Anotei na mão o nome dela pra não esquecer do que tinha que fazer. 

Então, o tempo parou. 

Eu pensei: quando foi que parei de anotar na mão as coisas que eu preciso fazer? 

Passei anos da minha vida riscando palavras-chave, desenhando guarda chuva e fazendo um rabisquinho, tudo pra sinalizar que precisava lembrar de alguma coisa. 

Quando foi que o celular e os lembretes de calendário eliminaram os lembretes de mão? Não me lembro desta transição, tão imediata que deve ter sido. 

Quantos hábitos simpáticos a tecnologia roubou de nós? Ninguém nunca mais soube que o desenho do guarda chuva era pra lembrar de levar o dito de volta pra casa e não deixá-lo secando pra sempre. E quantos guarda-chuvas esqueci por aí? Quantos inícios de diálogo sobre conhecer mais o outro foram perdidos com a falta de rabisco na mão? 

Todos os aniversários não precisam mais de anotações na mão. Ninguém interpreta mais que "presente Gabi" era o aniversário chegando. 

A falta de anotação na mão fez a gente conhecer menos o outro. Não fez? Fez olhar mais pra anotação no celular do Que pra mão do outro, não fez? 

Hmm... 
Até eu que amo esta facilitadora, não gosto dos julgamentos digitais. 

Anotei "Marília" na mão. 

28/02/2015

Banho de chuva

Nessa cidade sem mar, o que pode ser mais revigorante do que banho de chuva?

Hoje tomei um desses. Alias, um daqueeeeeles! De limpar o corpo, a mente e a alma.

A semana que foi tão puxada, tão cheia de responsabilidades e obrigações, retomou toda sua leveza com o pé d'água que caía do céu. Tão gelado! E ainda chegava junto um vento que, meu Deus, QUE FRIO!

Ainda tinha mais uns 15 minutos de caminhada até em casa, e não tinha outra solução. Sem celular, sem guarda-chuva, sem dinheiro ou Bilhete Único, sem previsão de pausa da chuva. Fui em frente. A cada passo, eu mais molhada, encharcada. O chinelo escorregava do pé. O óculos ficou embaçado, era melhor enfrentar a miopia do que as gotinhas na lente.

Me lembrou a infância.
As férias de verão e as chuvas no fim da tarde.

Começava a chover. Minha irmã e eu entravamos em casa correndo, a pressa só dava tempo de chegar na janela do quarto da mãe (onde ela deveria estar) e perguntar afobada: "Mãe, a gente pode tomar banho de chuva? A Bernadete já deixou o Paulo Victor e Tamires." (As vezes o Paulo Victor e a Tamires usavam esse argumento. "A Cida já deixou a Lala e a Lele irem"). Não me lembro da minha mãe negar banho de chuva.

A gente saia pelo condomínio, descalço, procurando chuva, poça d'água e os telhados que mais escorriam água. Passávamos por todos esse obstáculos. Era uma festa! Pulava em cada poça e ainda chutava a água que corria pro esgoto.

Tinha aquela sensação gostosa de pisar no asfalto.Era grosso e doía o pé. Mas como era gostosa a sensação da chuva na rua. Dos pés a cabeça.

No fim da chuva era gostoso deitar no chão da quadra, ainda quente. O lugar onde empoçava mais água era sempre o mais privilegiado e disputado.

Depois a gente ia pra casa da Tamires e do Paulo Victor. A festa da água continuava. O piso do quintal da casa deles era bem lisinho e dava pra escorregar de joelho. Tinha toda uma técnica de velocidade e queda. A maior festa era quando a Bernadete ficava lá, escorregando com a gente - sou fã dessas mães que viram criança junto com as próprias.

Na chuva de hoje, assim que entrei no meu condomínio (o mesmo desde a infância) tirei os chinelos. Senti de novo a sensação boa do asfalto quentinho e molhado na sola do pé. Foi como ter sete anos mais uma vez.

Que saudade que dá!